quarta-feira, 26 de julho de 2017


Poliglotismo Babilónico


Já uma vez escrevi sobre Babel. Diz a Bíblia que Deus decidiu misturar uma porção de línguas para que as pessoas não se entendessem, face ao desregramento de vida dos povos de antanho.
Hoje em dia falam-se centenas – ou milhares? – de línguas através desta Gaia (ou Geia?), há milhões de dicionários, tradutores simultâneos, até eletrônicos, mas quem enrola a língua ou não se entende com o outro... só pode socorrer-se de gestos, ou, o mais comum é levantar a voz como se isso fizesse o interlocutor “entender” a mensagem.
Vou começar por pedir que desculpem a minha verdadeira imodéstia, quando começo por afirmar que sempre tive alguma facilidade para, com alguma rapidez, entender boa parte das línguas strane com que me tenho deparado durante a vida.
Até uma vez servi de intérprete entre um japonês, que “falava” alemão à moda de Tóquio e um alemão que, além da sua língua, se entendia comigo em francês. Não sei se já escrevi esta “aventura” no blog. Vai a seguir!
Mas tem outras histórias, que mesmo tendo sido vivências minhas, ainda agora, ao lembrá-las me fazem rir.

1957
Comprei um carro – novo – e fui buscá-lo a Paris para levar para Angola. Um modesto, mas belo Simca Aronde, 1300 cc. Cheguei lá nos últimos dias em que me podiam atender, porque depois o pessoal ia para férias. Para levantar o carro entreguei toda a minha documentação – passaporte, carteira de condução, comprovante da compra feita através do representante em Portugal (com o meu grande amigo Carlos Mariano de Carvalho) e já nem sei o que mais – e recebi “a máquina” novinha. Enquanto tratavam da papelada, fui dar umas voltas por Paris, previamente avisado para não sair da cidade, esperando que uns dias depois me devolvessem a dita documentação, para poder então meter-me à estrada a caminho de Lisboa.
Estava com a minha irmã. Num dos “tours” pela Cidade da Luz consegui vislumbrar um espacinho bem mixuruco para estacionar; ali deixamos o carro e fomos passear nas Galeries Lafayette, sem dinheiro para compras, nem pressa de lá sair porque nada tínhamos para fazer.
À saída, quando estava a abrir a porta do carro vêm dois indivíduos à paisana, viram a gola do paletó para mostrar algum distintivo que eu não entendi o que seria (pensei que eram antigos combatentes de II Guerra !!!) e pediram-me os documentos do carro. Como disse, não tinha documento nenhum!
E os “caras” queriam multar-me porque o tal espacinho mixuruco era o lugar onde paravam os ónibus! O localizador era tão diferente de Portugal que eu nem me apercebi o que seria, e disse que não fazia ideia do que aquilo era. (Evidente que estava a falar francês com eles, né?)
Os “caras” ficaram um bocado chocados com a minha resposta e disseram:
- Você é parisiense e não sabe o que isto é? (Evidente que falaram francês, né?)
- Mas eu não sou francês. Sou português.
- Há quanto tempo vive em Paris?
- Dois dias.
- Então mostre-me um documento provando que é português.
- Já disse que deixei o passaporte e toda a documentação com a agência que está passar o carro para meu nome.
Vasculhei na carteira e encontrei o bilhete de identidade português, completamente diferente do francês (não havia União Europeia, nem à vista!). Comentário deles:
- Você fala tão bem, como um parisiense! Bom, acreditamos. Pode ir embora. Mas tome atenção: aqui em Paris, quando vir um espaço para estacionar... não estacione! Normalmente é proibido!
Rimos, ainda conversámos um pouco, mas eu saí de lá quase convencido a ser professor de francês... na Sorbonne!

1961 –
Andei, um pouco mais de três meses fazendo cursos e visitas profissionais a várias empresas em França, Bélgica, passámos em Inglaterra, Dinamarca, Alemanha e Suíça.
Em Paris fui à Foire National de l’Agriculture (uma maravilha) onde visitei e discuti diversos assuntos com alguns expositores. Num deles o big-chef não estava e pediram para eu voltar no dia seguinte. Mas entretanto tive que ir a Bruxelas onde me demorei uns quatro ou cinco dias. No regresso voltei à Foire, ao mesmo expositor, e quando pedi para falar com o tal chefe, o sujeito que me atendeu chama para dentro: Mr...? Voici le belge qui veut te parler!
Imagina: estive fora de França 4 ou 5 dias e já voltava com sotaque belga!
Fartei-me de rir com isto.

Pouco depois atravessámos – a minha mulher ia comigo – o Canal da Mancha, Calais-Dover, e ao chegar aos “britons”, passagem na alfândega. Vistoria do carro e das malas. Depois de três meses a falar francês o meu inglês estava totalmente bloqueado. O inspetor fazia perguntas que eu entendia, mas não era capaz de responder mais do yes ou no/not. Olhou para mim com aquele ar de superioridade britânica e mandou-me embora.
Demorou quase 48 horas para que o anglo-saxónico dialeto viesse ao de cima (à cabeça).

De Inglaterra seguimos de navio – carro e tudo – para a Dinamarca, onde chegámos bem cedo, uma manhã gélida, quando na véspera em Londres os termómetros marcaram 25° C (não Fahrenheit!). Eram oito da manhã, estava com o cabelo muito comprido, e na cidade de Esbjerg parti à procura dum barbeiro. Lá descobri, pendurada, uma placa que dizia Frisør.
“Tem que ser aqui – disse eu – mas devo de lá sair cheio de caracóis! Todo frisado.”
Era. Na velha linguagem de gestos, mostrei que queria o pêlo cortado e mostrei mais ou menos o tamanho residual que pretendia, de imediato entendido pelo profissional.
O especialista cortou muito bem, por fim trouxe um espelho para eu ver - estava ótimo - e fez uma pergunta toda dinamarquesa de que eu só entendi a palavra “shampoo”. Boa ideia, lavar a cabeça.
Pois o senhorzinho deu-me um esfrega craneana que saí de lá meio tonto... mas com o cabelo muito bem cortado, lavado e cheiroso!

Dali entrámos na Alemanha, o belo Simca começou com um barulho na roda direita traseira. Fui ver: tinha quebrado um dos parafusos que segura a roda. Chegados a Hamburgo, fomos ao hotel e dali nos indicaram uma oficina. Perto.
Veio o encarregado, em “perfeito alemão” apontei para a roda onde faltava um parafuso que se quebrara e tinham que tornear um novo. Mandou um yugoslavo, há quinze dias na Alemanha, para me atender. Olhou, viu o que precisava e num alemão pior do que o meu – que era mais ou menos só Volkswagen e Telefunken – disse, em linguagem eslavo-germânica que o carro ficaria pronto no dia seguinte às dez horas. Quando eu quis certificar-me que era mesmo às dez horas... o caldo entornou. Ele não entendeu nada, gerou-se uma babel perfeita. Aí, dona Gabriela, que em jovem tivera uma professora de alemão, busca nos seus pergaminhos intelectuais a bela linguagem de Goethe e, pausada e perfeitamente, pergunta se era mesmo às 10 horas que o carro estaria pronto.
O tal mecânico yugoslavo olhou para mim com vontade de me apertar o pescoço, como quem diz: “Este cretino tem a mulher que fala alemão e fica aqui a perturbar-me”!
Ficou pronto. Ótimo.

De volta ao hotel fomos jantar. Veio o distinto garçon, entregou a cada um o conveniente Menü e, postado como uma estátua, aguardou instruções.
Pergunto à esposa amada:
- Que tal umas costeletas de porco com batatas fritas?
- Acho ótimo.
- E um copo de cerveja?
- Sim.
Virei-me para o garçon:
­- Zwei Schweinekoteletts mit frites. Und zwei bier.
O impecável funcionário anotou tudo, e perguntou mais
- Sw#zeinen*haiertu§gquer@tzars... etc.
Como seria de esperar não entendi nada do que ele disse e respondi-lhe calmamente, em português, acompanhando com um gesto intelectualizado:
- Já não sei mais nada de alemão!
O sujeito fez um ar de grande espanto, também não entendeu, é evidente, foi embora, e enquanto não chegava com a deliciosa cerveja e mais os magníficos petiscos, a minha mulher, espantada:
- Onde é que você aprendeu alemão?????
- Aqui mesmo: Schweine vê-se logo que é suino, koteletts... igual e bier também!
Estava ótimo o jantar. Só que tiver que pedir, para mim mais umas bier!
No dia seguinte, Simca como novo, rumamos ao sul, onde na cidade... (esqueci qual) havia outra empresa a visitar. Hotel reservado, à entrada da cidade, uma porção de ruas, paro o carro e com o meu melhor sotaque à la Nietzsche, pergunto a um Inkognito Bürger :
- Bitte schoen! Hotel...”x” ?
Amável, o senhor bürger fez uma perfeita explanação do caminho a seguir. Tudo em correto deutsch:
- Erste Straße links, dritte auf der rechten Seite, zweiter von links, etc.
­­- Danke schoen!
Gravei tudo como se fosse um gravador: primeira à esquerda, terceira à direita, segunda à esquerda, etc., e quando a minha mulher perguntou o que ele tinha dito, eu pedi-lhe para não falar comigo que estragava a gravação.
Já lá para o centro da cidade, volto a parar e pergunto de novo pelo tal hotel.
Desta vez a conversa foi mais simples. O sujeito apontou: estávamos a dez metros da porta do dito!

1966.
Na época em que trabalhei em Angola com material fotográfico e ótico, um dos campos mais interessantes para atuar era a área cientifica, como raios X, artes gráficas, heliografia e microscopia.
Representávamos a Leitz, fabricante da famosa máquina fotográfica Leica e de uma completa gama de microscópios para todos os fins. Muito houve que aprender nesse campo, para poder trabalhar esta área, discutindo propostas com investigadores, universidade, laboratórios, etc.
De entrada, a fábrica alemã com aquela disciplina boche inflexível, não acreditava muito que uns sujeitos lá perdidos numa África longínqua e ignota, cheia de leões e cobras, e ainda não independente, fosse capaz de os representar com a dignidade que a sua tradição e qualidade impunham. E assim só nos iam vendendo, sem exclusivo, até que demonstrada a nossa primazia no mercado, acabaram por se render à evidência.
Com alguma regularidade era necessário ir a Wetzlar cidade pequena, com trinta e poucos mil habitantes, antiga, bonita, quase toda construída dentro de muralhas medievais, ficando a fábrica na parte exterior da cidade junto a uma das suas portas.
Era uma reciclagem para aprofundar conhecimentos, discutir condições, preparar ofertas especiais, sobretudo a propor algum material mais específico à universidade, que se estava ainda a expandir em Angola e necessitava de bastante equipamento.
Fábricas deste porte têm sempre funcionários técnicos que falam praticamente todas as principais línguas européias, e assim sempre éramos recebidos por alguém que falava francês, inglês ou espanhol, esta que é quase a nossa línguaum pouco modificada!
Dominando com facilidade o francês e inglês nunca foi problema entender-me nos diversos cantos da Alemanha por onde andei.
A Leitz tinha uma representação própria no Japão, e do mesmo modo era necessário que técnicos e pessoal de marketing japoneses estagiassem na fábrica, com as mesmas finalidades. Os que a representação japonesa ali mandava eram previamente submetidos a um curso intensivo de alemão por um período mínimo de seis meses, e só seguiam para a Europa depois do professor os considerar aptos a fazerem-se entender.
Numa dessas visitas foi destacado para trabalhar comigo um rapaz novo, alemão como seria de esperar, muito educado, recém saído da faculdade, atleta que pertencia à equipa de remo alemã. Falava muito bem francês, além do alemão. Um desportista.
Os problemas a discutir eram comuns a Angola e ao Japão, e como o delegado japonês teria aprendido o alemão, juntaram-nos os três. Tudo parecia muito certo porque o jovem alemão falaria com os dois. Para um lado alemão, para o outro francês. Perfeito.
Apresentação logo pela manhã. Nomes já foram esquecidos, mas seriam os senhores Oshiro Nakagawa e Ludwig Bismarck!
Oshiro Nakagawa associava sempre o aperto de mão, ocidental, a uma porção de várias e longas vénias, à oriental.
Depois desta pequena demonstração de ginástica amarela passámos ao trabalho e eu disse ao Ludwig que começasse pelos problemas do Japão, que eu iria com isso aprender bastante, uma vez que o japonês era um técnico, e além disso os termos dos diversos componentes do microscópio teriam, em qualquer caso, que ser mencionados em alemão, e até referenciados pelo catálogo.
Oshiro Nakagawa mais uma vez inclinou a cabeça e as costas umas quantas vezes a agradecer eu ter-lhe dado a primazia da palavra, mesmo sendo ele nessa ocasião muito mais novo do que eu. Mas tudo bem.
Começa o oriental, em alemão dantesco:
- Ya. Shii....  tsu...  funtsé... nhóshini... aká... tsirô!
O Ludwig ficou roxo, apopléctico! Nunca tinha ouvido tais frases na sua língua. Perplexo olha para mim com cara de quem pede socorro, mas eu, de alemão, pouco mais sei do que pedir uma cerveja nos bares! Com aquela explanação genuinamente alemã do japonês não me contive e ri com vontade. Oshiro, sorriso amarelo, peculiar, olhava para os dois, a ver qual teria coragem para lhe responder!
Para salvar o alemão de ser despedido por incapacidade, atrevi-me a dizer-lhe, mas desta vez em francês mesmo:
- Pergunte-lhe, falando alemão b e m   d e v a g a r,  se o que ele quer saber é este problema... assim, assim - já nem lembro o que seria. Alguma coisa a ver como fazer determinadas observações especiais.
- Você acha que é isso?
- Pelos gestos e sotaque, talvez seja! - e ria-me.
O Ludwig, alemão, ar de condenado ao cadafalso, não acreditando muito no que eu lhe dizia, mas sem outra alternativa arriscou. Nakagawa subiu aos céus. Era aquilo mesmo. Olhando ora para um ora para o outro, os dentes brancos aparecendo, feliz:
- Ya... Ya... Ya... Gut. Gut. Gut.
Bismarck naquele momento, se estivesse na sua mão poder fazê-lo, creio que me teria condecorado! Tinha-o safado de uma enrascada grande, sobretudo se ele tivesse que ir dizer ao seu chefe que não entendia o alemão do japonês!
Do mesmo modo o Oshiro Nakagawa nomeou-me seu interprete ad semper! Ficámos o dia todo juntos, e por incrível que pareça conseguimos discutir, com este método de tradução esotérica, todos os problemas que tínhamos agendado para aquele dia.
Durante o almoço, no refeitório da fábrica, ficámos também juntos e até fomos capazes de conversar com os funcionários que estavam na nossa mesa!
Cinco horas da tarde, quer faça sol ou chuva, os alemães viram-se para nós e
- Auf wiedersien! Bis morgen! - Passem muito bem! Até amanhã! - e põem-nos na rua.
O hotel do Nakagawa e o meu não eram o mesmo, mas o perdido japonês, não desgrudou do meu lado!
Era fim de verão, tempo agradável, e como nos tinham dito que podíamos frequentar o bar do clube do pessoal da fábrica, num lugar muito simpático, com um terraço encostado às muralhas, sobranceiro do rio Lahn, aí fomos petiscar e beber umas cervejas. Aquelas cervejas alemãs, que são todas ótimas.
Chegámos cedo, mais ninguém além dos dois, sentámo-nos numa mesa bem no canto do terraço de onde se avistava maior trecho do rio e do campo. Uma vista linda. O sol a pôr-se lá no fundo.
A nossa conversa era ótima, como se pode imaginar. Foi chegando gente. Trabalhadores da Leitz, alguns acompanhados da mulher ou de amigos. Vendo aquela conversa estranha mas que divertia os interlocutores, foram-se aproximando. Primeiro para ver que dialeto estaríamos falando! Depois para participarem do papo! Eles falavam alemão, eu tinha que lhes explicar, numa linguagem mista de inglês, francês, gestos e cinco por cento de alemão, que ele falava comigo também em alemão, e que eu respondia como podia! Nunca tinham visto nada parecido por ali. Aliás nem eu! Foram trazendo cadeiras e rodeando a mesa, quase todos insistindo em nos pagar ein bock, talvez em retribuição pelo espetáculo gratuito que lhes estávamos proporcionando! Pena que não pudemos bebê-las todas!
Foi uma noite sensacional. Rimos, conversámos, num entendimento especial, numa língua que não era a alemã, porque eu não a falava, muito menos o ex-estudante japonês, e nem os alemães falavam outra coisa. Eram como eu, acabavam sempre por entender um pouco daquela misturada de sons e gestos!
Acabou a farra depois das dez da noite, hora a que fechava o clube, porque havia trabalho no dia seguinte, com muito pesar de todos os presentes que se divertiram à grande.
No dia seguinte ainda me encontrei com Oshiro à entrada da fábrica, mas foi pena, não nos voltámos a ver.
Creio que se eu não aprendi nada de japonês, ele deve ter desaprendido o alemão que parecia não ter alguma vez chegado a saber! Mas que foi uma grande farra, lá isso foi!

1973
Trabalhava em Moçambique, no Banco – BCCI –o meu departamento era o de Relações Públicas e relações relacionadas, e sou mandado a Itália, Milano, fazer um pequeno estágio de uma semana, junto ao nosso correspondente a Banca Commerciale Italiana, talvez o maior banco comercial de Itália.
Tudo marcado, dia aprazado, bem cedo apresento-me no Banco e procuro pelo diretor que estaria à minha espera. Molto ammabile, conversamos tutta la mattina, almoçamos juntos e a seguir ao almoço foi levar-me a um qualquer outro departamento. Quando me apresentou ao diretor dessa área, o pobre coitado, faz um ar de terror, pergunta como ia falar comigo se ele parlava solo italiano, mas o meu anfitrião principal logo lhe assegurou com esta frase simples:
- Non ti preoccupare, lui parla di tutto. Mescolando italiano, francese, spagnolo e portoghese, abbiamo capito magnificamente.
Foi uma semana ótima. Fiz muitas perguntas, aprendi alguma coisa, sendo uma delas que a banca italiana estava vários séculos à frente da portuguesa! No final eu já parlava mesmo tutto!

2017
O difícil está em pronunciar, escrever ou entender o significado destes pré-históricos nomes hoje desinventados por brasileiros, como Karolhny, Dhiãnah, e outros que explicam porque se continua a votar tão mal!
Instrução (falta de), ou esperança de que um ou dois “h” ou “y” a mais, aristocratizam a estupidência.
王八蛋, ou como dizem os gregos σκύλα που γέννησε.

21/07/2017


quinta-feira, 20 de julho de 2017



Vamos deixar as praias de Moçambique por um pouco. Assim quem as quiser aproveitar ficará mais tranquilo. Entretanto vão tomando umas e outras!


Vinho! Aaahhh! O Vinho!

Estou a imaginar Baco a deliciar-se com os vinhos de antão, bebidos por uma cornucópia, e não por aquelas taças com que o representaram, rodeado de afrodites, lindas, todos de carne e osso e não de mármores muito bem trabalhados, mas duros e frios como a morte!




Imaginem a Afrodite e Baco assim, para beber uns copos!

Mais perto do nosso tempo, de hoje, há pouco mais de vinte anos, andava eu lá pelo norte de Portugal, no Gerês, planejando um trabalho florestal a ser feito no Parque Nacional, e tive o privilégio de conhecer um chefe dos guardas florestais, já aposentado, homem de quem fiquei amigo e de quem recordo com saudade, o senhor Machado.
Quando o conheci insistia em tratar-me por sr. engenheiro e eu quase me zanguei com ele para o convencer que o meu nome, desde que nascera, era Francisco. Ou ele me tratava assim ou eu o chamava por sr. Chefe! Humilde, relutante, acabou por me tratar por sr. Francisco e eu a ele por sr. Machado.
O que têm a ver Baco e o senhor Machado? Imagino que Baco bebia do bom e do melhor que havia nesse tempo no Olimpo, na Hélade e na Frígia – até dizem que foi ele que o inventou! – e o vinho que o meu amigo Machado produzia, das suas pequenas courelas lá no Minho, vinho verde tinto, teria convencido Baco a naturalizar-se... minhoto!
Uma das melhores delícias de vinho que já bebi, e olhem que, com a idade que conto, já devo ter ingerido, quem sabe?, talvez 8 a10 pipas de 550 litros cada... fora a cerveja, e outros álcoois! (Comecei a beber regularmente às refeições teria uns 14/15 anos, o que significa que comecei há 26.000 dias! É conveniente acrescentar que não sou um bêbedo, e que não me lembro de alguma vez ter apanhado uma bebedeira das... sérias!)
Voltemos ao vinho. O de Baco seria certamente só uva espremida e fermentada. Assim era o do meu amigo do Gerês. Uva e somente uva.
Há uns 45 anos trabalhava eu em Moçambique, na ex-Lourenço Marques, cervejas Mac-Mahon – 2M – apareceu-me um homem que queria abrir um restaurante, tinha começado já a obra num prédio, mas entretanto, acabara-se lhe o capital. Veio pedir um financiamento! Levou-me para ver a obra, o que faltava, quanto necessitava, etc., e disse-me que fazia o melhor bacalhau do planeta!
Para avaliar a situação, e como o banco BCCI era o “dono” da fábrica de cervejas, combinei ir lá almoçar com dois colegas do banco, ver se o tal bacalhau correspondia aos incómios do descapitalizado “restaurador” e, por sequência se valia o investimento!
Confirmou-se, por unanimidade, quase por aclamação, a qualidade do bacalhau que permitiu passarmos a discutir como arranjar o dinheiro necessário para terminar a obra. Não foi difícil: eu, que ali representava a 2-M, garanti o pagamento e o banco emprestou a grana. Alta!
Mas algo me intrigou: o vinho que nos serviu, um tinto “brabo” era muito bom, não tinha qualquer rótulo, e em Moçambique vinho bom, só engarrafado.
- Oh! Sr. Pereira (o meu amigo senhor Pereira, que depois brilhou em Lisboa – Restaurante Laurentina – e continua a brilhar nas mãos do filho)! Que vinho é este?
O Pereira chamou-me de lado, pediu-me segredo, que eu assegurei, e diz-me, bem baixo, no ouvido, que era ele que fazia o vinho.
- Mas onde arranja as uvas?
- Não leva uva!
- !?!?!?!?
- O meu pai trabalhou muitos anos num dos armazéns de vinhos do Poço do Bispo e aprendeu lá a fazer vinho, de qualquer tipo, sem uvas! Podia ser do Dão, Colares, de qualquer lado, mas sempre sem uvas!
Fiquei espantado. Espantado é pouco, mas a verdade é que o que ele nos deu a beber era uma bela pinga! Sempre tinha ouvido dizer que por aqueles armazéns, à beira-rio, quase se esgotava o Tejo a fazer tanto vinho, mas daí a ter a certeza de que tinha bebido um vinho, muito bom, que não era vinho, foi uma novidade!
- O senhor tem que me ensinar isso.
- Quando estivermos sozinhos eu ensino. É muito fácil.
Nunca mais houve essa ocasião, e eu perdi um profundo conhecimento científico!
Hoje, só em Portugal há centenas de marcas e tipos de vinho, desde os correntes, onde se encontram alguns muito bons (serão com a fórmula do meu amigo?!) até a marcas sofisticadas e caríssimas.
Mas vinho como os de Baco e dos meus amigos Machado e Pereira é difícil.
Os primeiros porque eram pura uva fermentada, e podia beber-se um litro que a digestão se fazia sempre com as ideias claras! O do Pereira era pura química, mas bastante bom. E, disse o “cientista”, saía-lhe bem barato!
Agora, além do anidrido sulfuroso que se injeta no topo da garrafa acabada de encher, o que sempre se fez para evitar a oxidação do vinho, a mistureba de produtos químicos que se junta às uvas é impressionante.
Dantes, e não há muito tempo, a Lei proibia juntar ao vinho, às uvas fermentadas, o que quer que fosse. Vinho era uva espremida e fermentada e nada mais.
Depois a amorosa União Europeia quis que Portugal adicionasse açúcar de beterraba ao mosto, e mais um pouco de água, com o que obteria mais vinho e eles venderiam assim o açúcar encalhado lá nos frios nortes da sobredita união. Portugal bateu o pé, falou grosso, disse que jamais faria tal coisa, a lei portuguesa era clara, etc., e os alemães e holandeses meteram a beterraba no...
Veio a modernidade, e a esculhambação!
Quando a gente pensa que está e beber o puro vinho, sem aditivos, aquele tipo Baco ou Machado, descobre que alguns juntam ao mosto um monte de tranqueira, como por exemplo:
- Estabilizante: ácido metatartárico, INS 353; quando adicionado este ácido, o vinho deverá ser previamente hidrolisado, pois induz uma precipitação incompleta de racemato de cálcio!  Entendeu? Não? Não tem importância.
- Acidulante: ácido cítrico, normalmente proveniente do melaço da cana de açúcar. Não, não espremem o limãozinho. É na química. É o ácido 2-hidroxi-1,2,3-propanotricarboxílico
- Anti-oxidante: ácido L-ascórbico, a vitamina C, que se costuma tomar para evitar a gripe!
- Espessante: goma arábica, E 414, é uma resina natural composta por polissacarídeos e glicoproteinas que é extraída de duas espécies de acácia da região subsaariana, principalmente da Acacia senegal e da Acacia seyal. INS 353 e E 414, usados simultaneamente impede as precipitações combinadas de tartaratos e matéria corante. Deu para entender? Não? Paciência.
A Goma arábica é usada como espessante e estabilizante para vários alimentos, na manufactura de colas e como espessante de tintas de escrever. Quando eu era moleque fazia uma mistura com álcool e água e ficava o dia todo penteadinho, lindão... com a cabeça durinha! Muito usada em espumantes, mesmo os que custam os olhos da cara, para espessando o vinho, segurar as bolhas que se desprendem mais lentamente e... o copo fica mais bonito! E, curioso, um dos grandes produtores de goma arábica seria o Bin Laden!!! A vender para os granfinos! Boa piada. Mas o Sudão do bonzinho Al-Bashir é o maior. (Ah! Em doses um pouco mais elevadas pode ser letal!)
E você que me lê pensava que tem andado a beber pinga da boa? Está enganado!
Primeiro veja bem o rótulo. A maioria só diz que tem sulfitos, porque sem eles o vinho viraria vinagre em dois dias. Uns, mais temerários, lá escrevem que misturaram INS 330, INS 300, INS 220, INS 200, esquecem o INS 353 e o E 414, etc., mas... tudo numa boa.
Face a estes cocktails que transformam o vinho em um quase derivante do petróleo – plástico – você só tem um caminho: começar a beber vinhos de preços acima de € 500, (só a meia garrafa) mas... assegurando-se previamente que a uva estava limpinha.
Ou então procurar antigos funcionários dos armazéns do Poço do Bispo e beber aquilo que temos a certeza de que leva tudo menos a maravilhosa uva!
Que saudades dos meus amigos Machado e Pereira. Um fazia vinho puro e ótimo, o outro um vinho ótimo e... secreto!
O problema mais grave de tudo isto é: “E agora, o que é que eu vou beber?”

19/07/2017


segunda-feira, 17 de julho de 2017


CAMINHOS do SOL - 4
por
Jorge Ferrão

Lamento ter que informar que são as últimas crónicas sobre as praias de Moçambique. Sobre algumas, algumas só, das paradisíacas praias de Moçambique. Tem muitas mais (praias). Já nos textos anteriores vos dizia que há que ir lá vivê-las. Muito melhor do que ir para o Caribe, Indonésia, ou outros lugares “da moda” . Além das praias vão encontrar um povo que vos acolhe de braços e alma abertos.
E quem não quer isso?

Península do Baixo Pinda


A mudança de estação convida a baleia corcunda (Megaptera novaeangliae) para o litoral moçambicano. Mães e crias buscam alimento e águas mais quentes para procriarem. Estes descomunais mamíferos e seus filhotes oferecem de presente, interessados e ocasionais, verdadeiros festivais de acrobacia que só a Mãe natureza poderia propiciar. Um cenário repetido ao longo de séculos e testemunhado por gerações litorâneas, inteiras, que acreditam que a vida iniciou no mar.
O faroleiro do Baixo Pinda, hoje mais descolorido que nunca, tem um assento privilegiado para assistir ao show. Seus olhos se confundem com binóculos e sua sabedoria com compêndios. Seu farol descontinuado pela globalização, se confunde com o único símbolo do desenvolvimento na região.
Baixo Pinda e outras baias vizinhas, incluindo Memba, são os locais predilectos. Vale a pena, em horário vespertino, quando o silêncio vira dono de si próprio, escutar os sons do repuxo de água libertados pela respiração destes gigantes. Nos intervalos entre um mergulho e, uma nova subida à superfície, a baforada provoca sons combinados que nenhuma sinfonia, nem timbila ou piano ousara, alguma vez, reproduzir. Toda a grandeza do maior animal do planeta transformado em música de outras escalas e solfejos.
O mais interessante, ainda, são saltos acrobáticos e as batidas das barbatanas. Apesar de parecer muito descomunal, as batidas das barbatanas são herméticas e compassadas. Parecem sinalizar sua presença e alertar ao mundo sobre sua graciosidade e ao descaso a que estão sujeitas. São os movimentos e ruídos que orientam as crias para que não se afastem demasiado de suas progenitoras. Cada cria conhece, melhor que ninguém, o som produzido pela barbatana de sua Mãe, e não os confunde nunca e em nenhuma situação. Tudo isto faz parte do festival.
Por vezes até parece que estes movimentos são, igualmente, interpretados pelo farol e faroleiro. Eles geram, imponentes, a vida e os acordes de Baixo Pinda. O faroleiro deve ser das profissões cuja genética e desfecho já vêem prescritos à nascença. Das poucas profissões no mundo em que os filhos sucedem seus pais.
Em Baixo Pinda, filho e pai falam com saudade dos múltiplos auxílios a naus, caravelas e marinheiros, pequenos barcos a remos e seus pescadores, mergulhadores e piratas. Não se queixam nunca do mundo e das ondas que apenas beijam suas areias. Do palco privilegiado, quase dão nomes às baleias que julgam ter conhecido no passado. Ninguém no mundo descreve melhor esta festa que só os privilegiados podem desfrutar.
A Península do Baixo Pinda, no distrito de Memba, norte de Nacala, não perdeu sua originalidade. Outrora Mopa Ekoma, ou tocador de batuque, a região continua habitada por pescadores e suas famílias. Pescam de tudo e todo ano. Para fazer jus ao nome original, estes pescadores e seus familiares adoram música e passam noites a fio tocando quer instrumentos musicais tradicionais, como aparelhagens mais modernas de ensurdecer qualquer ouvido de elefante.

Haverá quem não fique com inveja de não estar no Baixo do Pinda?

Baixo Pinda distingue-se, também, por ser a Península dos Embondeiros (Adonsonia digitata).
Existem algumas centenas, senão milhares destes exemplares. Na realidade, todas as árvores do ecossistema agigantam-se, crescem, como se quisessem converter-se, elas próprias, em faróis. Não admira, pois, que os pescadores façam dos troncos, seus barcos de sobrevivência. A beleza do local, para além do recorte geográfico, de fazer inveja a qualquer outro bioma, se distingue ainda pela diferença de cores entre as praias, a região coralina e o alto mar. Os fotógrafos trocam de lentes e ângulos para descobrir o para do infinito.
Existe um conjunto de pontas tais como a Fica, Nagata, Macuvi e a Nuarro. Cada uma delas, verdadeira dádiva de Deus. Só a Ponta Nuarro tem infra-estrutura para albergar turistas. As restantes continuam virgens. Aguardam por investimentos socialmente responsáveis. As vias de acesso são problemáticas. Estradas de terra batida e, regra geral, pouco condicionadas. Assim, Baixo Pinda permanece serena para os locais, e desafiadora para os banhistas e aventureiros.
Valerá a pena, dizem os locais, subir o Farol e desfrutar do espectáculo das baleias e até do Atum. Quando estes decidem aproximar-se da costa, por alguma razão em cardumes numerosos, a água borbulha. Tudo se transforma em  caldeirão  em  efervescência. As raridades que poucos olhos terão o privilégio de desfrutar. Bem de cima do Farol consegue-se ver o mundo, como se Baixo Pinda não fizesse parte do planeta. (X)


Os Bidões das praias do  Chinde


No Chinde, onde um dos bros do delta do Zambeze beija as ondas do Índico, ainda se contam relatos dramáticos de tragédia social. No limiar dos anos 70 Portugal vivia contradições decorrentes do avanço da luta de libertação nacional. Guerrilheiros intensificavam a frente de Manica-Sofala cruzando o rio Zambeze. Na região de Mutmane, terras dos “Chindus”, chefiados pelo chefe “Chinde”, contava-se que um cargueiro zarpando às pressas do Porto do Chinde, com bidões de álcool a bordo, encalhara. Os pescadores artesanais foram intimados a desembarcar a mercadoria. Só assim, o navio reflutuaria. Foram dias de azáfama e desespero. Canoas, bidões e pescadores se confundiam com o próprio mar.
O álcool, misterioso, seguia em direcção a África do Sul. Os propósitos eram, na altura, desconhecidos. A mercadoria chegou no cargueiro pela lancha-canhoeira “Chire” após ter sido descarregado no porto de São Tomé, em Marromeu. No porto do Chinde foi transbordado para aquele navio cujo nome o mar silenciou.
Desencalhado, o navio, ainda, ensaiou nova caminhada. Fez uns movimentos agonizantes e se afundou. A carga, baldeada para a praia de kumangue, ali permaneceu ao longo de semanas. Com a administração militar e civil despreocupada, a carga foi desaparecendo por debaixo dos palmares.
Naquelas noites de luar, os larápios desenhavam sombras que se confundiam com espíritos. Eram baldes de todos tamanhos que alimentariam outras cobiças. Chinde festejava na calada da noite. Noites que já não eram tão silenciosas. A “sura das palmeiras” e a “cabanga” tradicional de mexoeira haviam sido substituídas. As mulheres nas suas capulanas amarradas por “nhecas” e blusas, acompanhavam, também, seus maridos na festança diabólica do raiar ao pôr do Sol. Não tardaram as primeiras vítimas.
As vítimas, eram indígenas negros. Depois, pereceu um mecânico mulato portuário. Não tardou que tivesse morrido um colono. Pianista branco e único na vila. Ele sim, mexeu com a serenidade da administração. Chinde perdia o ritmo e compasso nas celebrações. A vila descoloriu. Num ápice se converteu em enfermaria anexa ao cemitério.
As suspeitas ganharam corpo. Era álcool metílico. Destino era Africa do Sul do Apartheid. Retornaria a Moçambique confeccionada, como bebida barata, para ser distribuída em regiões contíguas as da luta armada. Era o tudo por tudo da “psicossocial”. As novas e subtis formas de destruturar processo de libertação.
O encalhe do navio frustrou as intenções da inteligência militar.  Ainda assim, o álcool metílico, por conta e risco, espalhou-se pelo vale do Zambeze. Milhares de bidões seguiram, na contracorrente, até Tete. Comerciantes, sem escrúpulos, enriqueceram. Este argumento ajudou a explicar tamanha cegueira no vale do Zambeze. A este álcool metílico se associava a aguardente de maçanica (maça da Índia).
Eventualmente, a aguardente de maçanica possui certo teor de álcool metílico, quando fermentada. Certas frutas são susceptíveis a esta reacção química. Em Portugal existe um tipo de uva que só pode ser consumida como fruta e não como vinho pois, quando fermentada, ela reproduz álcool metílico.
O etanol bem como o metanol encontram-se no álcool. Ingeridos são transformados no fígado pela enzima álcool desidrogenase. Porém, os metabolitos subsequentes do etanol são convertidos em água e dióxido de carbono. Portanto, não tóxicos. Com os metabolitos do metanol essa degradação não ocorre na sua plenitude. Consequentemente, uma percentagem não degradada se transforma em substancia tóxica. A ingestão do metanol ou álcool metílico, ainda que em quantidades reduzidas, pode causar danos, devido a toxicidade, à retina e nervo óptico. Também pode matar.
Existe percepção generalizada de que o vale do Zambeze se confronta com casos anormais de cegueira. Os estudos precisam de confirmar estas percepções. A toxidade da maçanica. Só assim, se explicariam as patologias oculares suas origens e causas. Chinde das terras húmidas, de pôr-do-sol paradisíaco sobre as palhotas de macuti, não exportará mais bidões de álcool metílico. Esta terra abençoada e as suas gentes continuarão acolhendo com doçura os ventos da mudança. (X)


As varandas de Crusse e  Jamali


As conchas das praias de areia branca e água azul-turquesa, de Crusse e Jamali, encerram lendas inconfessáveis. As revelações só são feitas aos predestinados. Privilegiados. Aqueles cujos ouvidos sabem ver e esconder. Dispostas em forma de rosário, Crusse e Jamali são ilhas de origem coralina, muito pequena dimensão, inacreditavelmente atractivas e exímias guardiãs da multiplicidade e das complexas interpenetrações seculares de culturas, tradições, sonhos, ventos, mares e povos.

E vejam o que por ali se encontra! E muito mais...

Inabitadas, desde sempre, só por não disporem de água doce, conservam, ainda, uma parte da sua floresta tropical costeira. Olhando para os seus mangais, enquanto preparam os remos para destinos incertos, os pescadores jamais cruzam os olhares com os interlocutores. Falam, seguindo os ritmos das ondas, do que ainda parece ser permitido fazer. No rol das regras, nunca dormir na ilha. Depois da faina, não contabilizar, aritmeticamente, o produto da pesca. No final da faina, ninguém deverá contabilizar o produto pescado. Basta dizer que teve uma boa safra, ou uma colheita mais ou menos.
Estas ilhas de raríssima beleza encantaram e fascinam seus visitantes. Serviram de refúgio de poetas que as transformaram em varandas, para contemplar Muipithi. Sem qualquer referência arquitectónica, exceptuando o manancial natural, Crusse e Jamali viraram as costas ao profundo canal de Moçambique. Preferiram continuar com suas costas rasas em períodos de mares vazantes, propiciando as longas caminhadas sobre o leito do Índico. Assobiam para o lado durante os períodos de mare cheia. Ignoram os ventos sul destapando as conchas, onde escondem as vontades dos espíritos Namuenke e Hanassi.
Demoníaco e de caracter mórbido Namuenke domina os mares. Hanassi reina nos corais escuros e petrificados. Ambos fingem guarnecer os coqueiros e as casuarinas da península de Napenja. Já não controlam a floresta de micrusse, de Matibane e nem as areias brancas de suas praias.
As florestas de micrusse, eventualmente a madeira da mais resistente que Moçambique possui, já dominaram o literal desta região. Hoje a floresta esta definhando e moribunda. Não escapa a fúria dos predadores. A floresta de micrusse serviu para construir a primeira capital de Moçambique. Banianes, logo seguidos por persas, portugueses e holandeses, edificaram a exuberante arquitectura da Ilha de Moçambique com a madeira micrusse. Não admira, por conseguinte, que todos os telhados das habitações existentes, quer na cidade de Macuti, como da Pedra, ostentem micrusse como brasão. As vigas de micrusse registam, silenciosas, sonhos dos insulares e seus visitantes, os morcegos que aumentam, e os esconderijos dos mosquitos portadores de malária.

Um dia Crusse e Jamali se descaracterizarão. Os apetites de quem sobrevive vendendo a natureza não tardarão a corporizar. Virará paraíso de mergulhadores e exploradores de corais. Baluarte dos coleccionadores de peixes ornamentais e santuário de vendedores de estrelas e constelações. Os espíritos serão empurrados por outros ventos e mares. Crusse e Jamali serão o maior cartão-de-visita do potencial turístico e das ilhas primárias cujas varandas não desfrutamos!  

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhos do Sol - 3
Por Jorge Ferrão


Vamos continuar a visitar mais umas praias de Moçambique... e a ficar cheios de inveja por lá não podermos estar! Mas não é difícil! É só programar para as próximas férias!


A Praia do Mia

No começo era apenas a praia da Cabaceira Pequena. Os residentes locais, pouco propensos a nomenclaturas, sempre a trataram-na apenas como Mangal. Na realidade, este é um dos mais bem preservados mangais de Mossuril. Em 2001, muito por culpa de um fotógrafo Holandês, a praia do Mangal foi transportada para o mundo. Depois, reconvertida em projecto, ganhou nova denominação. Passou a praia do Mia. Mia Couto. Duvido que ele saiba. Ou se alguma vez saberá. Nem acredito que ele se importe, desde que a praia continue sendo respeitada, preservada e usada para o bem-estar e benefício de todos.
Foi, então, o dito cujo holandês de câmara a tiracolo quem decidiu, ainda no longínquo 2001, idealizar um projecto turístico para Cabaceira Pequena. Do livro, Árvore do Frangipani, do escritor Mia Couto, extraiu um trecho que reflectia a Cabaceira nos dias que navegam. “... Aqui é onde a terra se deita, onde o tempo se despe e onde os Deus vêem rezar”. Melhor descrição não poderia ter sido feita. O letreiro tem alguns erros ortográficos, mas disso ninguém se importa. Não existe transeunte nenhum que não pare para correr suas vistas pelas letras, agora perdendo seu brilho. Assim, sem mais e nem porque, o local virou praia do Mia. Pura criatividade de banhistas.
A sentença ditada pelo escritor sobre a Cabaceira Pequena já antes havia sido feita pela própria natureza, passam-se 300 anos. A Cabaceira Pequena é um lugarejo discreto, mas sinistro. Acordou, um dia, às escuras e assim permaneceu durante décadas. Depois da partida do Governador Pereira do Lago, antigo Governador-geral da Ilha Moçambique e, consequentemente, de Moçambique, a terra se deitou irremediavelmente. As monções mais não fazem que aprimorar esse sono. Se a ausência de qualquer progresso tem sido espantosa, pior tem sido a nudez que tomou conta das vergonhas e das intimidades das suas gentes e da própria natureza. O local anda tão esfarrapado, que os Deuses se recusam a qualquer que seja a reza. O único que ainda cruza os dedos é o supremo do Mangal. Os corais, esses afastaram-se tanto do mar, e viraram museus. Cabaceira Pequena pode ser o único lugar do planeta onde o gigante mar se assustou e regrediu.
Cabaceira foi terra predilecta de Vasco da Gama. Árabes, Persas, Chineses e Turcos. O poço de água doce que alimentou caravelas e naus, permanece intacto, porém a maior parte do ano sem os líquidos condignos. Outrora, quartéis do Capitão Rufino, as últimas referências assentam nas famílias Matiria Machon e Long Fat e ainda do português Massa. Agora, nem as sombras dessa elite se deitam mais no local. Os esqueletos dessas sombras sim, vagueiam desafiando as contrariedades do fotógrafo holandês, que com mestria fez de suas fotografias vida. Os investidores criaram a empresa Frangipani Limitada. Foi um italiano que deu o seu nome a árvore. Mossuril é um paraíso de frangipanis. Para complementar a obra, a empresa Frangipani designou o projecto por Varanda. Não é tão evidente que seja Varanda do Frangipani. Mas, é Varanda. Para ousar e inovar a Varanda gerou o Coral Lodge.
Coral Lodge 15.41, é um conjunto de 10 bangalós muito expostos, aos ventos e almas, mas preserva excessivas privacidades para os humanos. Os quartos, ou quartos-salas são de tal maneira amplos que dispensam ares frios artificiais. Somente as camas escondem os ares que a natureza nem sempre nos oferece. Bem por cima de cada cama, tem um ar condicionado. Parece, de forma acertada, uma medida de austeridade, em momentos de contenção, e que se alinham perfeitamente com os cuidados ambientais.
Coral Lodge é, também, o nome de uma instância turística no Panamá, que não tem nada a ver com o Coral Lodge 15.41 que são as coordenadas para chegar ao local. O acesso pode ser feito por Nampula, Lumbo, Pemba ou Nacala. Duas horas a partir do aeroporto de Nampula e ¾ de horas de outros pontos. No começo eram cerca de 50 trabalhadores locais os que, com bravura, aceitaram o desafio de construir algo na ponta mais estreita da Cabaceira. Misto de material local e convencional. Hoje o número de funcionários reduziu para 40. No grupo, alguns holandeses, incluindo o chefe da Cozinha.
Uma vez no local o que mais chama a atenção, depois do letreiro do Mia, seria até o Mangal. Mas, os tons azuis, e azul-marinho das águas, em momentos de maré cheia, deslumbram. No interior do Coral Lodge 15.41 os móveis de madeira de coqueiro, fazem inveja a quem vive importando madeiras de outras árvores ou países. Nunca essa madeira foi tão valorizada. Agora tenho o coqueiro como amigo e aliado. Para reforçar e ressalvar o brilho e o requinte desta soberba madeira, o lodge decidiu por lâmpadas de LED, todas elas com apenas 1 volt. Assim, foi decretado um inconformado romantismo de luzes. Engana-se quem julgar que os livros do Mia estariam espalhados por todas as suites. Só existe um único livro. O livro já desapareceu algumas vezes, mas por algum milagre retorna ao SPA. Aliás, o SPA também vale mesmo a pena. Faltaria incorporar mussiros, argilas (nhtope) e as algas da Ilha. Teríamos, então, um SPA mussurilizado e internacional. Melhor, mesmo, seria ir passar a temporada, usar o SPA e assegurar que leva consigo o livro ou os livros do pseudo proprietário da praia.
Virou moda os turistas doarem uma gorjeta para um Fundo comunitário. Coral Lodge 15.41 assimilou a moda. São apenas 2 dólares. Ideal deveria ser 15 e 41 para fazer jus ao nome. Como faria bem que existisse algo regulamentando para estas doações. Os comunitários da Cabaceira ainda pensam como usar o fundo. Os proprietários do Lodge querem ter os detalhes do que será feito com a massa. A letargia dos residentes vai perdendo as rotinas. Visitas guiadas atrapalham os continuados repousos. Busca-se um entendimento sobre a história de um povo que vive de história e de passados. Os diálogos mais parecem monólogos. A mímica resolve, no final.
Coral Lodge 15.41 é a mais recente novidade das praias de Nampula. Já recebeu turistas da Europa, Ásia e dos EUA. Por ser de 5 estrelas, os pacotes oferecidos, vão de encontro às constelações financeiras. Porém, para além da variedade de produtos turísticos, os visitantes podem desfrutar de um regado velejar pela Ilha de Moçambique, de uma abundante fauna marinha e ainda mergulhar nos últimos corais que resistem ao tempo e as mudanças climáticas.


O Misterioso Lago Ntandazimu


Ntandazimu, é como os locais o designam. Um pequeno e estranho lago no interior da Ilha Vamizi. Por ser de água salgada, quase não é visitado. Apenas para um ritual anual. Não se sabe se os espíritos ajudam na pescaria, mas os poucos ilhéus, sobretudo os mais jovens, desconfiam de tanto mistério. O lago tem aproximadamente 10 metros de diâmetro, águas límpidas, de cor verde turquesa e, em dias de sol intenso, as águas se confundem com um grande lençol estendido por baixo da vegetação. Em tempo, nem por isso tão remoto, um caçador disparou sobre um conjunto de rolas, numa árvore próxima do lago. Era final de tarde e ele desesperava por alguma presa que fosse. Depois do tiro, uma das rolas resvalou e, enquanto ajustava os últimos equilíbrios, caiu no interior do lago. Ali ficou prostrada e sem indícios de que fosse afundar.
O caçador seguiu com os olhos seu percurso e, sem muito esforço, deu conta que a presa estava bem próxima. Esfregou suas mãos de contente. Antes que a rola desaparecesse nas profundezas do lago, decidiu despir-se e buscar seu troféu. Assim que mergulhou, de cabeça, sentiu que embatera em algo inexplicável. Tentou, enfim, nadar e parecia que a água lhe amarrava os braços. Atordoado, suspendeu os movimentos e deu conta que flutuava sem esforço, bem próximo da sua presa. Valeu-lhe o grupo de pescadores que, alertados pelo estrondo, foram seguindo a cena a par e passo. Aproximaram-se e esticaram-lhe um caule de outras funções. Trazido de volta a terra firme, o caçador sentiu sua pele cozida. Continua vivo, em Mocímboa da Praia, porém debilitado e sem munições. Nunca mais caçou.
Outros episódios sucederam-se no lago Ntandazimu. Regra geral, qualquer criatura que por descuido ou infelicidade caí no lago nunca afunda. É a maldição dos espíritos. Cada um dos episódios é narrado em diferentes sabores e tons. O lago Ntandazimu não possui nenhuma espécie de vida. Não existem peixes, nem algas ou outras plantas aquáticas. A explicação para tamanha raridade advém dos altos níveis de salinidade da água. O lago fica a sensivelmente mil e quinhentos metros do mar, porém bem abaixo do nível do mar. Esta localização confere características típicas de outros mares interiores, com iguais ou superiores níveis de salinidade. Os estudos provam que para cada 100 mililitros de água salgada, nos oceanos e mares normais, existem cerca de 3 gramas de sal. Todavia, nas águas interiores e sem misturas, para a mesma proporção de água, chega-se a registar mais de 30 gramas de sal, quer dizer, dez vezes mais que o normal. A elevada salinidade explica-se pela evaporação natural e pelo facto de quase nenhuma água doce fluir para aquele lago.
Da última vez que espreitei o lago Ntandazimu conversei demoradamente com o ancião que simultaneamente faz papel de guarda e porta-voz entre os espíritos e os visitantes. Ansiava por novos episódios, mas ele não tem mais nada para contar. Agora, fá-lo a troco de desembolsos. Recordou-me que as visitas ao lago continuavam proibidas. Ainda assim, visitantes interessados - meu caso - se sujeitavam às taxas de conveniência. Quanto maior o interesse pelo lago, mais caro o acesso. Afinal, aquele era seu trabalho e os pouquíssimos residentes locais haviam a ele confiado, essa dificílima tarefa.
Estudos oceanográficos sugerem que lagos e mares interiores possuem, em suas águas, não apenas cloreto de sódio, como também magnésio, potássio, cálcio e brometo. Esta combinação se mantém intacta por força da ausência de movimentos da água. Mergulhar é praticamente impossível. Nadar exige técnica apropriada. O ideal é flutuar. Até quem jamais nadou, pode flutuar que nem uma rolha. O mar morto, é disso um exemplo; e aos visitantes, é expressamente recomendado, que observem cuidados extra especiais para nadar. Os banhistas devem, invariavelmente, entrar para a água de costas, não molhar nunca a cabeça e permanecer calmos. Mais interessante ainda é o facto de estes lagos possuírem efeitos curativos excepcionais.
O Lodge de Vamizi, agora galardoado como um dos melhores do continente africano e do mundo na sua categoria, deveria explorar, sempre com o seu guarda, os valores terapêuticos do Ntandazimu. A climoterapia, que combina banhos em águas salgadas (talassoterapia) com os banhos de sol (helioterapia), seria um complemento na diversificação da oferta e actividades recreativas. Um SPA para lá de natural. Todos, mesmo todos, sairiam a ganhar. O turismo nacional ficaria reconhecido pela descoberta. Só peço que seja explicado ao guarda a razão de tanto mistério.