segunda-feira, 20 de novembro de 2017


7ème Arrondissement


Continuemos com os amantes. A vida é curta!

Paris, Rue Rousselet, um petit Cafe-Restaurant, Fignier, uma rua tranquila.
Há quantos anos o Restaurant ali estava, ninguém sabia ao certo. Nem a dona. Ela e o marido o haviam comprado há mais de vinte. Clientes habituais, um salão de jantar de tamanho médio, muito arrumado, um pequeno café e bar na entrada, e sempre, sempre, uma cozinha gourmet.
Clientes habituais e quase diários, como Jean Louis, aposentado da SNCF, que raro o dia ali não almoçava. Íntimo da casa, entrava sempre com um sorriso e um belo cumprimento para a simpática, eficiente e trabalhadora dona, madame Simone.
Madame Simone tinha enviuvado há quase sete anos e, de entrada foi-lhe difícil continuar com o negócio, que quase só ela e o marido mantinham. Teve que se organizar, arranjar um ajudante de cozinha que ela nunca deixava de supervisionar, e ao mesmo tempo atender ao bar, onde a maioria dos fregueses já quase faziam parte da família.
Jean Louis era um desses fregueses a quem madame Simone, como a outros, fazia questão de atender pessoalmente.
- Sempre bela, madame Simone! Então o que me recomenda hoje?
- Não seja tolo messieur Jean Louis. Já não sou jovem, e ouvir esses cumprimentos até me deixam sem graça. Sabe que nós devemos ter quase a mesma idade! Bom, que tal un petit filet avec pommes sautées et des artichauds au beurre?
Jean Louis era também sempre atencioso:
- Ah! Madame, vous me portez toujours vers le ciel! Não esqueça o vinho. Pode mandar trazer já, mesmo antes da comida.
O garçon trouxe o vinho da conhecida preferência do habitual cliente, mas era sempre madame Simone quem fazia depois questão de servir o prato com a comida.
- Voilà.
- Sempre uma maravilha. Obrigado.
Com muito tempo e calma, Jean Louis, nos seus sessenta e alguns, saboreava o magnífico filet, bebia uns dois copos de vinho, e por fim alguma sobremesa leve e o indispensável café.
Se o restaurante não estivesse cheio deixava-se ali ficar sentado um bom tempo. Assim que saísse não tinha rumo certo, a família toda vivia longe, teria que passear pelas ruas, dele sobejamente conhecidas, vagava, vez por outra ia ao cinema ou a um teatro, enquanto no restaurante havia movimento, alguma animação e sobretudo a sua amiga, sim, porque de há muito se consideravam amigos, madame Simone.
Só aos domingos, e nem todos, é que ia almoçar com a única filha e netos. Era praticamente só essa a variante da sua vida.
Quando todos os clientes saíam, por vezes madame Simone vinha comer a sua refeição na mesa do cliente, o que a este dava um prazer especial. Conversavam, sobre assuntos banais, mas Jean Louis começava a sair de lá frustrado. Vivia só e aquela companhia estava a animá-lo, sobretudo a fazer-lhe falta.
Chegou o dia em que se atreveu ir um pouco mais longe.
- Madame Simone, a senhora mora aqui por cima do restaurante, não é?
- É verdade.
- E vive sózinha?
- Vivo. Mas como costumo sair tarde daqui, muitas vezes nem tempo me sobra para pensar nisso, já que bem cedo estou de volta e começa todo o trabalho de novo.
- Mas às segundas-feiras, o restaurante fechado, era ocasião para relaxar um pouco.
- Mas é isso que eu faço. Levanto-me mais tarde, dou uma volta pela casa, que apesar de não ser grande sempre precisa de mão de mulher, depois saio, vou almoçar fora, e tudo isso já é uma variante.
- Vamos fazer o seguinte: numa próxina segunda-feira eu venho buscá-la, de carro, e vamos almoçar fora de Paris. Tomamos um pouco d’air de la campgne, almoçamos num lugar tranquilo, e nesse dia não tem que se preocupar com nada. Fica, inteiramente, por minha conta! O que acha?
- Messieur Jean Louis. É muito amável da sua parte, mas...
- Não tem mas... É um convite sincero, e devo dizer-lhe que me sentirei muito honrado se aceitar.
- Vou pensar. Durante o resto da semana voltaremos a falar nisso. Mas eu não quero, de forma alguma, atrapalhar a sua vida.
- Meu Deus! Atrapalhar a minha vida! Jamais. Pelo contrário. Seria para mim uma grande alegria.
No sábado, madame Simone, quando serviu o almoço ao seu cliente, muito rapidamente e em voz baixa disse-lhe
- Segunda-feira. Combinaremos isso mais logo.
Jean Louis não cabia em si de contente. Parecia um menino a quem prometeram o brinquedo desejado.
Um pouco mais tarde, restaurante quase vazio, madame Simone traz o seu prato e vem sentar-se na mesa de Jean Louis.
- Então segunda feira vamos para o campo! Há anos que não saio de Paris, e só de pensar que posso respirar um pouco de ar puro, achei que deveria aceitar o seu amável convite.
- A que horas devo vir buscá-la?
- Pelas nove e meia, para nos podermos afastar mais da cidade, e sair dos engarrafamentos. O que lhe parece?
- Esplêndido.
À hora combinada, Jean Louis no seu carro, um pequeno Citroen, lá estava à porta da casa. Madame Simone, desceu, ele saiu para a cumprimentar e lhe abrir a porta do carro, e seguiram direção Norte.
- O que lhe parece irmos até à Normandia?
- Para mim é igual. Só de sair da cidade já é uma maravilha.
Optaram por estradas secundárias. Não tinham pressa e a idéia era gozarem a natureza. Era Maio e os campos estavam lindos, muitos deles cobertos de flores.
Pararam em vários lugares, ora para apreciar a paisagem ora visitar um monumento antigo, e pareciam felizes com toda aquela descontração. Sempre Jean Louis chegava primeiro ao carro para abrir a porta à sua companheira, o que ela não deixava de notar e se sensibilizar.
À hora do almoço acabaram por deparar numa estrada quase sem movimento, un Petit Auberge – Café – Restaurant, com uma estrela Michelin, garantia de qualidade, que logo lhes chamou a atenção. Fora, a povoação estava rodeada de campos e floresta, o lugar quase idealizado, para que, longe do tumulto das cidades, respirassem o tal ar puro.
Restaurante simples, a proprietária, madame Michelle, recebeu-os muito bem, uma senhora amável, que lhes propôs o que ela achava melhor nesse dia:
- Terine maison et aprés perdrix embeurrée de choux, foie gras et cèpes. (Cépes, um delicioso champignon!)
- Mas como deve ser bom! – Jean Louis já lambia os beiços – O que acha?
Madame Simone confirmou que seria ótimo.
- Du vin?
- Que tal um Bourgogne Nuits Saint George?
- Magnífico.
Conversaram, comeram o almoço que estava delicioso, depois um crème brulé, e café. Não podia ser melhor.
Sairam, deixaram o carro em frente ao Auberge e foram andar um pouco pelo campo.
Sentiam-se felizes, e como o caminho pelo campo era de piso irregular, Simone de repente tropeçou e teve que se apoiar em Jean Louis. Daí para a frente seguiram de braço dado.
Quando viram que era chegada a hora, de novo à estrada, a caminho de Paris, e volta e meia respiravam fundo! Lembrar do ar puro que haviam inalado, ou alguma espécie de nervoso pela presença um do outro?
Ao entrarem em Paris:
- Madame Simone: tenho outra surpresa! Tenho aqui bilhetes para irmos hoje ao teatro! Théâtre La Bruyère, ver “Leu jeu de l’Amour et du Hasard”, com Leonie Simaga e Alexandre Pavlov. Tem recebido ótimas críticas.
- Oh! Gostei da ideia. Mas vou ter que trocar de roupa.
Passaram em casa, Simone subiu para se arrumar, enquanto Jean Louis, discreto esperou no carro.
O teatro foi muito bom, o título da peça parecia ter sido escolhido para eles que muito gostaram,
De volta a casa, mais uma vez Jean Louis fez questão de abrir a porta do carro. Simone, saiu.
- Foi um dia maravilhoso. Não sei como lhe agradecer.
- Não tem nada a agradecer. Eu é que lhe agradeço muito a sua fantástica companhia. Foi um dia ótimo e, para mim, inesquecível.
- Também foi muito bom para mim. Muito obrigado.
- De nada. Amanhã nos veremos.
Boa noite, boa noite, Jean Louis foi embora sorrindo. Alegre.
A semana ia correndo dentro da mesma rotina, com Jean Louis sempre procurando ficar o máximo possível no restaurante. Passou até a chegar um pouco mais tarde para permitir que os restantes clientes fossem saindo primeiro.
E lá vinha madame Simone sentar-se ao lado dele.
- Não me sai da cabeça aquele nosso passeio. Temos que repetir. O que lhe parece?
- Eu também apreciei muito, e acho que qualquer dia voltaremos a dar outro passeio.
- Que tal já na próxima segunda-feira?
- Nesta não, porque na última não consegui dar um trato na minha casa, e não posso deixá-la ao abandono. Vamos deixar para a outra. Fica já combinado.
Jean Louis não via o tempo passar. Tinha que esperar uns dez dias que lhe pareceram uma eternidade, e no dia aprazado, lá estava ele, no seu Citroen a abrir a porta a madame Simone, que vinha com uma roupa mais fresca. Fim de Maio, um dia de sol, Jean Louis também só com uma camisa de verão, um boné na cabeça, enfim, dois turistas autênticos.
- Sabe uma coisa: fomos tão bem recebidos naquele Auberge que sugiro que voltemos lá para almoçar de novo. O que acha?
- Perfeito.
- Vamos é por outras estradas. O campo é sempre lindo, mas é bom variar.
Flores, monumentos, algumas villages que mereciam uma parada para serem apreciadas, e de novo no restaurante.
- Madame, aqui estamos novamente. É porque gostámos.
Madame Michelle desta vez disse-lhes:
- Nem vou dizer-lhes o que tenho para o almoço. Será surpresa. Mas se não gostarem, troca-se pelo que quiserem.
- O que lhe parece?
Madame Simone achou a idéia ótima.
- Merece vinho tinto ou branco?
- Acho que tinto.
- Então por favor traz o mesmo que bebemos da outra vez. Lembra?
- Muito bem.
Jean Louis, antes de chegar o almoço, pediu desculpa, levantou-se da mesa, disse que precisava de lavar as mãos e dirigiu-se à proprietária do Auberge, sem que madame Simone o visse.
- Tem algum quarto vago?
- Sim, porque?
- Por favor, reserve um, de preferência com uma vista bonita para o campo.
E voltou para a mesa.
Madame Simone estava com um ar também de felicidade. Ela que estivera enclausurada anos seguidos e que, mesmo as férias passava em lugar triste, perto de uma irmã. Somente aproveitava para descansar, mas não tinha distrações nem nada que a atraísse.
Jean Louis, talvez o calor do dia o estivesse a estimular, pegou na mão da sua amiga Simone. Colocou-a entre as suas, e sem dizer nada ficou a olhá-la. Ela deixou, sentiu um ligeiro rubor, mas não reagiu.
- Simone, vou deixar o “madame”. Não calha nós estarmos aqui como amigos com esta cerimónia. Por favor trate-me por Jean, ou Jean Louis, como quiser.
- Acho muito bem.
- E...
Entretanto chegava o almoço, e enquanto se serviam estiveram calados. Nem repararam bem o que tinham na frente para comer.
Olhavam-se nos olhos.
- Eu ia dizer-lhe que nós, que não somos já meninos, podemos pensar em nos juntarmos.
Simone estremeceu. Ela sabia que não tardaria a vir uma proposta assim, mas não esperava que fosse tão direta, e no momento ficou sem saber o que responder.
- Eu não vou meter-me no seu restaurante, não vou atrapalhar em nada a sua vida, mas temos muitas horas que sobram aos dois, e vivê-las em conjunto será certamente muito melhor do que cada um no seu canto, isolados.
- Jean. Não sei o que lhe dizer. Conhecemo-nos há muito tempo, temo-nos sempre respeitado, o que me leva a receber essa proposta com toda a seriedade. Mas não sei se seria bom para ambos.
- Porque?
- Não sei, e olhe o que vou dizer: essa idéia também já me passou pela cabeça, e eu tentei esquecê-la.
- Porque esquecê-la? É uma proposta que não deve estranhar. Já de há muito tempo que olho para si com olhos diferentes. Procuro ficar no restaurante o máximo de tempo possível, porque no fundo a sua companhia me faz bem, e eu sinto muito a sua falta logo que nos afastamos.
- Vamos comendo isto que está com ótimo aspeto.
Jean Louis nem apreciou o que comeu. Engoliu. Estava preso no que Simone lhe poderia dizer.
- Simone, eu não deveria dizer que a amo, porque poderia soar um tanto infantil, mas a verdade é que a desejo muito. Você é ainda uma mulher atraente, cheia de vida. Porque desperdiçá-la sozinha?
- Jean, está a deixar-me confusa, sem saber o que lhe dizer.
Acabaram o almoço. Jean Louis estava disposto a jogar todas as cartas.
- Simone, prometa que não se zanga comigo, com o que lhe vou dizer, e propor.
- O que é?
- Pedi á senhora para reservar um quarto para nós. Vamos lá acima. Não faremos nada que não queira, mas conversaremos mais sobre tudo isto. Sabe que eu seria incapaz de ir contra a sua vontade. Tenho-lhe muito respeito e não queria que jamais pensasse mal de mim.
Simone estava, aparentemente, sem resposta. Mas no fundo sabia que também essa proposta um dia chegaria. As mulheres têm um sentido mais profundo do que os homens!
- Está bem. Vamos lá conversar sobre as nossas vidas.
Jean Louis vibrava e o seu coração batia mais forte. Quarto número 4, à direita.
Abriu a porta, fez com que Simone entrasse e voltou a fechar com a chave. O quarto tinha uma bela janela com uma magnífica vista para o campo. Simone aproximou-se, olhou e disse “que beleza”.
Jean que veio por detrás passou-lhe carinhosamente os braços pela cintura. Simone teve a melhor reação que Jean podia esperar: aconchegou-se. E assim ficaram uns quantos momentos, sem falar.
Então Jean virou-a para ele.
- Simone já senti a sua resposta. Estou no céu. – E abraçou-a com mais calor.
Ela, de entrada meio inerte, não tardou a passar os braços em volta dele também, e o inevitáel, aliás o esperado, aconteceu. Um beijo, e muito silêncio.
Jean, como sempre delicado, e receoso com uma possível reação negativa, aponta para a cama.
Simone, também devagar, senta-se nela. Voltam a abraçar-se, e já começam a querer tirar a roupa.
Jean diz-lhe:
- Simone, use a salle de bains para se pôr à vontade.
Ele despiu-se, deitou-se dentro dos lençois e ficou, com o coração a bater, à espera que a porta da salle de bains se voltasse a abrir. Não tardou. Simone sai enrolada num lençol de banho, cabeça baixa, com vergonha de cruzar o olhar com o parceiro, e correu para dentro da cama.
Abraçaram-se, acarinharam-se, ferviam beijos, mon amour, até que chegou o momento inadiável. Jean estava preparado, Simone entregou-se.
Duram sempre pouco, estes momentos, mas deixaram os dois em sublime felicidade. Olhavam-se e riam. Parece que, realmente se amavam. O amor não escolhe idades.
- Jean, isto é tudo muito louco! Mas a verdade é que há muito tempo eu sonhava com um encontro destes. Não com um homem qualquer. Você foi maravilhoso, e eu acho que estou pronta para aceitar a proposta que me fez ao almoço. Hoje vamos aproveitar estes momentos, sem falar mais nisso. Eu estou muito feliz.
- Simone, mon amour, eu também não tenho palavras, mas agora então é que não a quero perder. Amanhã começaremos a discutir os detalhes da nossa união, se bem que não haja grande coisa para discutir! Há muito que eu também sonhava com este encontro, e estou até com dificuldade em realizar que tenha acontecido.
Deixaram-se ficar deitados, abraçados mais um bom tempo, até que chegou a hora do regresso.
À saida, Jean Louis disse à proprietária:
- Madame, vamos voltar em breve para a nossa lua de mel, e queremos o mesmo quarto!

05/03/2014





quarta-feira, 15 de novembro de 2017


Meio século

Vida nova!
Acabados os estudos de engenharia, emprego garantido, a força da juventude a garantir a saúde e a boa disposição, e um trabalho de responsabilidade para enfrentar os clientes e propor-lhes as soluções técnicas mais indicadas para cada caso.
Com vinte cinco anos, Pedro, estava a pensar casar com a garota que conhecia, e se amavam, há já cerca de sete anos.
A empresa, com cerca de cinquenta funcionários, reservara-lhe uma pequena sala, com uma segunda mesa ao lado, para uma secretária, quando necessária, ali datilografar propostas, relatórios, o que fosse.
Manuela tinha um corpo lindo! O esqueleto recoberto com carnes suficientes, uma cintura fina, um peito maravilhoso, e uma cara arredondada, sempre com as faces rosadas, e uns olhos claros, meio de gata. Uma beleza. Simpática, descontraída, alegre, eficiente, os seus vinte e um anos não pareciam habilitá-la a que fosse tão responsável.
Quando circulava entre os colegas, todos os olhos a seguiam, ávidos. Ela percebia, olhava para eles e sorria.
Pedro disfarçava os seus olhares, comprometido com o seu casamento, e mais, sabendo que onde se ganha o pão... tinha que respeitar a colega, e não se arriscar a pôr tudo a perder: o trabalho e a noiva.
Nunca alguém viu Manuela dar “troco” a qualquer colega. A todos tratava muito bem, sempre sorrindo, sempre agradável, deixando os homens babando e as colegas roendo-se de inveja!
Quando saía, no fim do expediente, o povo nas ruas abria alas para ela passar. E lá seguia Manuela, sorridente, sem se querer exibir, mas sem poder esconder a sua beleza.
Pedro um dia perguntou-lhe:
- Onde estão arquivados os projetos do ano passado?
- Estão no arquivo. Eu vou buscar. Não se incomode.
O arquivo era num pequeno quarto, um cubículo interior, estreito, escuro, com prateleiras nos dois lados da parede, até ao teto. Para acessar a todos os “andares” tinha uma escada que encostava nas prateleiras.
- Onde estão que eu pego? – diz Pedro
- Não. Eu é que os arquivei e sei onde estão. Vou pegar.
Na última prateleira. Manuela subiu os degraus necessários e a sua saia passou um pouco acima dos olhos de Pedro. O espetáculo fê-lo estremecer! Prendeu a respiração. As pernas, lindas, da Manuela, torneadas como nenhum artista seria capaz de copiar, ali, sobre o seu nariz, deixando ver até... Vidrado, sem se mexer, e sem saber o que fazer, aguardou o fim da procura.
- Pronto aqui está o que pediu. – e passou-lhe o arquivo.
Para descer, Pedro fez questão de a ajudar, e ela deixou-se deslizar encostada ao peito dele, que arfava. Quando pousou os pés no chão as caras deles ficaram bem de frente, olhos nos olhos, ela aguardando a evolução do inesperado (?) encontro, ele, com ela nos braços, sem saber como sair da situação.
Não resistiu. Aquilo era demais. Aproximou mais a cara e beijou-a; com toda a força e vontade.
Manuela devia estar à espera de algo como isso e em vez de se desenvencilhar correspondeu com ardor.
Logo depois saíu do cubículo, as faces sempre rosadas, como se nada tivesse acontecido, e Pedro, aflito, teve que se esgueirar para o banheiro para poder recompor a respiração e pensar nos passos que deveria dar a seguir.
Voltou para a sua mesa, e Manuela aguardava instruções de trabalho. Ele não queria levantar os olhos e ter que a encarar. Mas o seu coração batia forte. Tinha sido um momento demasiado arrasador.
- Se o senhor engenheiro agora não tem nada para eu fazer, volto lá para o escritório.
- Muito bem, mas por favor, um pouco antes de sair passe por aqui que eu vou deixar preparado o trabalho para começar logo de manhã.
Não conseguia preparar nada. A sua cabeça rodava em alta frequência, e nem sabia com que cara iria encarar a noiva.
Passou pouco tempo...
- Senhor engenheiro, está quase na hora de eu sair. Quer fazer o favor de me passar o serviço.
Pedro, abstrato, quase deu um salto na cadeira.
- Por favor, Manuela, sente aí um pouco. Quero pedir-lhe desculpa pelo que se passou. Você sabe que é muito bonita e eu não tinha o direito de fazer o que fiz.
Manuela segura da situação:
- Creio que aqui não é lugar para discutirmos isso. Conhece a pastelaria que tem na segunda rua à direita, quando se sai daqui? Eu vou andando e espero lá por si.
Piorou a situação. Indeciso, mas atraído para o abismo, sabia que era impossível resistir a uma mulher como aquela. O que fazer? Também não podia fugir. Tinha que enfrentar, e, antes disso escolher bem o que pretendia da vida. Mas quem é capaz de decidir algo com o coração a bater daquele jeito? Como um autómato caminhou para a pastelaria.
No canto mais resguardado e escuro Manuela o aguardava.
- Sabe, senhor engenheiro, que eu há muito esperava ser agarrada por si e poder beijá-lo? Não são só os homens que têm atração pelas mulheres. O recíproco é verdadeiro.
- Manuela! Sabe que eu vou casar, e sabe que você é maravilhosa e ninguém lhe resiste. Sinto-me perdido. Gosto muito de si, acho-a uma colega linda, eficiente, e mais do que atraente. Mas...
- Não tem mas! Porque não nos amarmos um tempo? O seu casamento, pelo que disse ainda vai demorar. E eu também sinto muita atração por si.
- Meu Deus! O que vamos então fazer?
- Na rua de cima tem um pequeno hotel. Eu sei porque é no meu caminho de casa. Vamos até lá, porque aqui não podemos conversar à vontade. Tem sempre gente passando. Saia primeiro. Daqui a uns quinze minutos vou lá ter. Diga qualquer coisa na entrada, para que me deixem subir. Dê o nome de, por exemplo, Fernanda.
O hotel simples, mas limpo e arrumado. Pedro pediu um quarto, para descansar umas horas, porque tinha que voltar para o Porto no combóio da noite.
- Ah! É verdade. A minha mulher deve vir aqui ter daqui a pouco. Por favor indique-lhe o quarto e diga-lhe que suba. Chama-se Fernanda.
No quarto Pedro não sabia se continha a respiração, se respirava fundo, nem sabia já se estava com febre! Todo ele era uma pilha de nervos.
Não tardou que Manuela chegasse. Parecia cada vez mais bonita e descontraída.
Pedro não lhe deu tempo a que dissesse alguma coisa, agarrou-a, beijou-a até ficarem os dois sem fôlego. A conversa interessava pouco. O tempo era um quase nada para estarem juntos. Num instante se despiram, ela mostrando um corpo ainda mais bonito do que vestida poderia parecer, ele, com os seus vinte e poucos anos, pronto para os “finalmentes”.
Agarraram-se, beijaram-se, rolaram. Ambos sentiam-se para além do éter!
Manuela não o largava também. Não era primeira vez que estava com um homem, mas a primeira trazia-lhe péssimas, horríveis, lembranças. Com treze anos tinha sido violentada por um tio. Sem darem queixa, porque isso traria consequências para toda a família e sobretudo para a garota, obrigaram o tio e ir embora para longe. Mandaram-no para Moçambique e, em boa hora, nunca mais tiveram notícias dele.
Manuela sabia que as relações com um homem que ela amasse não podiam deixar-lhe nenhum trauma. Ela via os pais se amarem na cama, e sabia que era bom, porque no fim sempre se beijavam. E agora, com vinte anos, e muita conversa com amigas, o seu passado estava esquecido. Quase.
Não se percebia quem estava com mais prazer neste encontro. Os dois pareciam loucos de amor e desejo.
Para ela, Pedro era um jovem, bonito, forte, educado e, quando trabalhava a seu lado, sempre a respeitara. Não era como os outros colegas que não desgrudavam os olhos dela, olhos ávidos de fêmea, que a incomodavam. Olhos que lhe lembravam o tio. Um horror. Ela sorria para todos. Era a arma que usava para os acalmar. Pedro comportava-se como uma pessoa respeitável. Mas, como ela, era jovem.
Do mesmo modo Pedro, se bem que o seu coração sempre aumentasse um pouco o ritmo quando a via, procurava disfarçar e tratá-la com o maior respeito, o que a atraía ainda mais.
Aquele encontro no cubículo do arquivo, tirou a máscara aos dois! E agora ali estavam a amar-se, sempre com medo que o encontro chegasse ao fim, porque, como estava, devia durar eternamente.
- Manuela: não sei o que lhe dizer, mas eu estou no céu e no inferno ao mesmo tempo!
- Por enquanto guarde só o céu. Ainda temos mais uma hora. Depois falaremos sobre o infer...
O dia começava a escurecer. Eram mais do que horas para que ambos voltassem a suas casas.
- E agora? O que fazemos?
- Não sei. Amanhã falaremos nisso. Entretanto vamos pensar em alguma coisa.
Sairam juntos, na esquina do quarteirão, sem ninguém a passar, um último e apaixonado beijo. Depois cada um seguiu para seu lado.
Pedro, autômato, repetia para si: “Entretanto vamos pensar em alguma coisa.” Estava incapaz de pensar no que quer que fosse, e num terrível pânico, pânico, de ter que enfrentar a noiva. Ele sabia que a amava, que era a mulher da vida dele, mas Manuela obcecara-lhe todos os pensamentos. Parecia hipnotizado. Dominado por aquela flor linda, mais que apetecível, que não o deixava pensar em outra coisa.
Dormiu mal. No dia seguinte, no trabalho mal levantava a cara para falar com qualquer colega, com medo que lhe adivinhassem o pensamento. Nervoso, não conseguia concentrar-se, nem terminar o projeto que deveria passar a Manuela para datilografar.
Quando ela entrou, nem levantou os olhos.
- Daqui a pouco eu já a chamo para lhe entregar o trabalho.
E demorou para chamar. Sabia que o projeto não estava bem preparado, mas não podia disfarçar mais. Depois, quando estivese mais tranquilo o refaria.
No fim do dia, Manuela foi despedir-se dele.
- Boa noite, senhor engenheiro. E baixinho: - vou esperar no hotel.
Pedro sofria, não podia libertar-se, estava com um encantamento de que queria e não queria fugir. Era uma maldição maravilhosa, mas antevia um final dramático, difícil e que poderia destruir a sua vida, os seus planos.
Mas o apelo era mais forte. Procurou ver se não era seguido, passou na portaria e o recepcionista, sabido do encontro, malandro, ainda se atreveu a perguntar:
- É até à hora de ir para o Porto? – E fez um sorriso de gozo, que Pedro disfarçou.
Assim que entrou no quarto já se agarraram os dois. Dois amantes loucos, imparáveis, insaciáveis, com uma paixão que normalmente leva a um fim trágico.
Não falavam. Amavam-se, amavam-se com uma fúria imensa, cada um temendo ou adivinhando que um dia perderia o outro.
- Pedro eu acho que também estou louca, com medo de te perder. E sei que isso vai acontecer. O teu casamento é a tua vida, e tens que a seguir. Mas até lá quero estar contigo todos os momentos que puder.
- Manuela, de fato o que se passa conosco é uma paixão violenta, e não acredito que qualquer de nós tenha força para a interromper. Eu, pelo menos, não sei como largar-te. Até no escritório o meu rendimento caíu quase a zero. Não consigo concentrar-me. Só penso em ti, e como é bom estarmos juntos. Uma loucura.
- Vou-te contar o meu segredo. Há um vizinho meu, um jovem que está bem de vida, simpático, educado, e que não larga a minha porta. Já falou com os meus pais, e quer, porque quer, casar comigo. Eu disse-lhe que não tenho pressa nenhuma em casar, mas que iria pensar nisso. Mas eu pensava que haveria de aparecer uma oportunidade para estar contigo antes que lhe desse o meu sim. E agora, não posso dá-lo tão depressa.
- Mas depois de casada eu não quero estar mais contigo. Seria infâmia da minha parte.
- Nem eu. Por isso tenho vindo a adiar. Vamos deixar passar mais uns dias e ver se consumimos um pouco do fogo que temos dentro.
- No que eu não acredito!
E voltaram a amar-se. Muito. Os beijos mal os deixavam respirar, sempre profundamente abraçados.
Uma semana passada todos os dias no hotel “à espera do combóio da noite!”
Perto do fim de semana o chefe da empresa chama Pedro e diz-lhe que ele tem que ir à Escócia, possivelmente ficar lá uns oito dias, porque a fábrica de uns equipamentos que representavam estava a desenvolver uma máquina nova e queriam saber se ela se adaptaria às condições de outro país. Ainda estariam a tempo de fazerem alguma alteração. “Prepara tudo que seguirás no voo de domingo.”
Pedro neste tempo só via a noiva a correr. O hotel absorvia-lhe quase todas as horas vagas. Disse-lhe que tem andado a estudar um projeto, e agora, por milagre, parecia que tudo se encaixava, uma vez que tinha que ir ajudar a desenvolver um equipamento novo. Na Escócia.
Nessa tarde, sexta-feira, no hotel, entre beijos e tudo o mais, Pedro diz a Manuela que vai ficar, pelo menos oito dias fora. Na Escócia. Ordens do patrão.
- Manuela, este vai ser o nosso último encontro. Diz ao teu vizinho que aceitas a proposta de casamento. É uma oportunidade para nos separarmos, se bem que aqui dentro do meu coração e pensamento, tu jamais vais sair, porque no fundo eu te amo enormemente.
- Pedro! Que horror! Porque o último encontro? Eu espero o teu regresso, meu amor.
- Não Manuela. Eu só quero o teu bem, e não poderíamos continuar esta vida eternamente. Casa, procura ser muito feliz, eu sei que não consigo esquecer-te, mas Deus me livre de ser causa da tua infelicidade.
Voltaram a amar-se e viam-se nos rostos de ambos umas lágrimas que apareciam.
Quando voltou da Escócia, Pedro soube que a Manuela tinha pedido dispensa e saira da empresa. Ia casar dentro de poucos dias. Deixara um bilhete, igual ao que dera aos colegas com quem mais simpatizava: “Não falte ao meu casamento!”
Pedro não sabia se respirar aliviado ou correr a casa dela para um “outro” último encontro. Mas também vinha da Escócia com uma proposta irrecusável: tinham-lhe oferecido um cargo importante na representação da fábrica no Canadá.
Posto o problema ao patrão, já ao corrente, porque o presidente da fábrica em Kilmarnock, antes de lhe fazer a proposta lhe, e é evidente que ele concordara. Era o futuro do jovem que estava em jogo.
Dentro de um mês casaria e seguiria para o Canadá, onde começou também a sua nova lua de mel. Maravilhosa, a mulher era uma jovem também muito bonita e que o amava, mas havia um gosto de mistura entre ela e a inesquecível Manuela, que ele não vira mais, mas que nunca lhe saíu da cabeça.
Tinha sido uma paixão de tal violência que deixou cicatrizes profundas. E gratas.

Cinquenta e alguns anos passaram.
Pedro, devagar, desce a avenida onde ficava, e onde ainda estava, a empresa onde trabalhou. Há tanto tempo! Distraidamente olha para a entrada do prédio, já renovada, novas vitrines com máquinas modernas lá dentro, quando de repente choca com uma senhora que vinha em sentido contrário e que também não reparara nele. A senhora, já de idade, quase cai, Pedro consegue segurá-la, pede-lhe mil desculpas.
- A senhora está bem? Machucou-se? Quer sentar-se em algum lugar?
- Não se preocupe, estou bem, sim, nada me aconteceu, além do susto.
E olharam na cara um do outro. Alguma coisa havia atrás daqueles rostos envelhecidos, mas.... o que?
- Olhe minha senhora, eu vinha distraído e não reparei. Peço-lhe imensa desculpa.
- Ora, não foi nada.
- E sabe porque? Eu trabalhei aqui dentro há mais de cinquenta anos. E uma saudade forte bateu.
- Ah! Sabe que eu também aí trabalhei?
- Como é possível? Não diga que trabalhámos juntos. Era o que faltava. Como é o seu nome?
- Manuela.
Pedro sentiu-se mal. Uma tontura e uma forte batida no coração. Teve que entrar na loja e pedir para se sentar. A senhora, assustada segui-o.
- Por favor alguém pode dar um copo de água a este senhor? O senhor sente-se bem?
Pedro mal conseguia falar, mas pouco mais do que balbuciou:
- Manuela! Eu sou o Pedro!
Desta vez a senhora pediu outro copo de água e mais uma cadeira. Sentou-se a seu lado, pegou nas mãos de Pedro e começou a chorar. Choraram os dois. E o pessoal da loja não sabia como acudir àqueles dois simpáticos velhotes, que assim ficaram um bom tempo.
Quando se levantaram:
- Ainda existe aquela pastelaria?
- Creio que sim.
- Vamos lá?
Seguiram, rua fora, de mão dada, limpando um resto de lágrimas, e sorrindo um para o outro. E de mãos dadas ficaram a conversar na pastelaria.
- Porque não vamos para o hotel?
- Pedro?!
- Eu estou num hotel muito mais confortável do que este daqui!
- E onde moras?
- No Canadá, em Toronto. Desde que para lá fui só tenho vindo aqui de tempos a tempos, por alguns dias de férias. E sempre passo em frente à loja a pensar em ti!
- E tu? Eu moro num lugar, fora da cidade, perto da praia. Uma casa pequena, mas que é o meu ninho. Não tive filhos e agora que também já não trabalho, distraio-me passeando. E venho muita vez aqui em frente do nosso antigo trabalho e fico a pensar...
- Deve ser uma beleza onde moras.
- É sim. Mas vivo sózinha.
- Enviuvaste?
- O meu primeiro casamento não deu certo; ele era demasiado ciumento, como se fosse culpa minha ser bonita! Nunca o atraiçoei, mas o ciúme era doentio e resolvemos nos separar. Dois anos depois casei outra vez e aconteceu o mesmo. Durou só mais dois anos. Depois, desisti. E queres crer? Só pensava em ti!
- Pois eu, mudei três vezes de cidade, no Canadá, até ser presidente da empresa e mudar-me para Toronto, onde me aposentei e tenho casa. A minha mulher, com quem sempre me dei muito bem, morreu há cinco anos, mas... nunca, nunca, da minha memória e do meu coração saíu a doce Manuela. Tenho três filhos e cinco netos, todos espalhados pelo Canadá. É raro reunir a família, e o que faço é também passear, tenho vindo algumas vezes por estes lados, sempre com a idéia maluca de te poder voltar a encontrar! E eis que a maluquice... aconteceu.
Acarinham-se as mãos e sorriem, mas nos olhos notava-se um pouco da tristeza de tantos anos passados.
- Não podemos perder mais tempo. Vamo-nos casar! Já.
- Pedro, ficaste maluco?
- Não. Estou perfeitamente consciente, e não vejo razão para não aceitares este pedido, formal..., que acabo de te fazer. E já tenho até planos para a nossa vida: no verão ficamos em Toronto, e o inverno passamos para a tua casa, porque lá no Canadá o frio é horrível! Magnífico plano.
Manuela olhava-o sem dizer uma palavra. Sorria.
- Onde tem uma Conservatória de Registo Civil mais próxima?
- Pedro! Tanta pressa! Não temos que dar satisfações a ninguém.
- Meu amor, não temos nem mais um segundo a perder.
Enquanto a documentação dos noivos não ficava pronta, e ninguém sabe se alguma vez foi utilizada, Pedro mudou-se para casa da Manuela.
E estavam felizes. Como os jovens que se encontravam “à espera do combóio para o Porto”!

06/03/2014



quarta-feira, 8 de novembro de 2017



A  prima  Lucília

Lá para as bandas do Norte de Portugal, terras de gente boa, mar generoso, por vezes perigoso, no seio de uma família com algumas posses foram nascendo meninas. Sempre.
No meio de mais quatro irmãs que todas foram casando, umas com melhores, outras com menos bons maridos, a número três a contar de cima (ou de baixo), não encontrava pretendente que lhe servisse, e a bater nos trinta e mais uns quantos, já estava resignada a ficar para tia.
As irmãs diziam-lhe que não fosse tão exigente, que homens bons são mais raros que diamantes, que quanto mais bonitos mais as mulheres os querem roubar, ricos passam a vida na farra, etc., mas a verdade é que...
Apesar disso nunca descuidou a aparência. Não se deixava engordar, fazia todos os dias uma boa caminhada, como para ir comprar o necessário para a casa, pão, verduras, tudo. Quando passava na rua, o padeiro, atencioso, supondo que o fazia desapercebidamente, vinha até à porta despedir-se, suspirava e dizia para com ele: “que desperdício”. Lucília parecia adivinhar-lhe o pensamento, e o seu trajeto obrigatoriamente passava pela padaria, onde comprava todos os dias o pão, sem pressa, sabendo estar a ser toda analisada pelo simpático padeiro, que sabia casado, mas com uma mulher que devia pesar mais de cem quilos.
Um dia surgiu, tal Dom Sebastião, vindo no meio do nevoeiro, o “cavaleiro dos sonhos”. Um imigrante que saíra de casa pouco mais que adolescente, de volta à terra, os bolsos bem forrados, a saúde aparente em forma, e a idade... estava a inteirar os cinquenta.
Sozinho, de família conhecida, não tardou a visitar todos os que há umas quantas décadas tinha deixado, querendo saber tudo, e contando as suas venturas e desventuras em terras do além mar.
Chegou o dia de visitar a mãe de Lucília, a quem chamava tia, viúva há muito, o marido tinha-se “ido”.
Salvador, o imigrante, não tinha mais pais nem irmãos, nem outros parentes na terra, os que sobravam estavam todos imigrados, atencioso, sempre que sabia que havia senhoras nas casas que ia visitar não se esquecia de levar um simpático ramo de flores.
A velhota recebeu-o com muito carinho, apresentou-lhe a filha, onde o viageiro fixou bem os olhos, e pediu a Lucília para trazer aquela garrafinha de vinho do Porto. O especial, aquele que só se abre em ocasiões raras.
- Para receber o filho da minha velha amiga, e quase vizinha, a Emília, que Deus tenha em boa paz, tem que ser o melhor vinho. E traz também aqueles bolinhos secos. Caem muito bem a esta hora.
Lucília não tardou a voltar com tudo quanto lhe pedira a mãe, e encontrou os dois em animada conversa. A boa velhota, que raro recebia visitas, estava toda animada e contava histórias de quando Salvador era menino, e também o destino que levaram as outras filhas. Só Lucília é que ainda não encontrara o seu par!
Lucília corou um pouco e Salvador não deixou de notar, mas nada disse.
Conversaram um bom bocado, e à saída, Lucília que o acompanhou até à porta, foi assim solicitada:
- Desculpe o que vou perguntar, mas um solteirão nesta terra morre de tédio. Gostaria muito de a convidar para jantar comigo um destes dias. O que acha?
Lucília, hesitou, quase corou, mas achou que um jantarzinho fora, era até uma ideia boa.
- Acho muito simpático. Aceito sim. Quando quiser.
Não tardou dois dias, o Salvador já queria, Lucília também, mesmo desde o primeiro dia. Ele foi buscá-la a casa, fora da cidade havia um belo restaurante, com ótimos mariscos, e para lá foram.
Andaram uns quilómetros e pouco depois estavam sentados numa mesa com vista para o mar, que àquela hora, já noite, só mostrava um pouco da espuma que se deliciava espraiando-se na areia.
Conversa variada, o que você fez lá por onde andou, o que faz tenções de fazer agora, e ela, por sua vez foi-lhe dizendo que pouco mais fazia do que tomar conta da mãe e da casa, às vezes duns sobrinhos, quando alguma das irmãs viajava ou estava adoentada.
O jantar estava ótimo, o vinho, aquele Alvarinho que não tem rival, no fim estavam os dois muito mais descontraídos e parecia até que já se conheciam há tempos.
De volta a casa, ainda a porta fechada, à despedida, Salvador disse-lhe, sem rodeios:
- Lucília. Nós já não somos crianças e pelos vistos estamos condenados à solidão. Quer casar comigo?
Desta vez Lucília corou, mas também não muito. Já não era mais criança.
- Salvador. Você foi muito gentil comigo, e vi bem a sua educação enquanto falou com a minha mãe, mas uma proposta dessas, assim à queima roupa, a esta hora da noite e depois de termos bebido aquele ótimo vinho, deixa-me confusa. Além disso quase que nem nos conhecemos.
- Ao menos faça-me uma promessa, simples. Que vai pensar nisso.
- Vou. Mas hoje qualquer resposta que lhe desse seria, de certeza, disparatada.
- Combinado. Vou deixar passar uns dias e depois telefono-lhe. Não para me dar qualquer resposta pelo telefone, como é evidente, mas talvez para tornarmos a sair. O que acha?
- Muito bem.
- Então, boa noite e muito obrigado pela companhia.
- Eu é que agradeço. Boa noite, Salvador.
Lucília já tinha ouvido uma porção destas propostas, a última há uma dúzia de anos! Casar agora? O que faria com a mãe? A solução é ficarmos a viver nesta casa, tanto mais que Salvador por enquanto não tem casa. Acho que com as coisas assim arranjadas até vale arriscar o casamento. O que posso perder com isso? Talvez só, só, a última oportunidade. Vou dormir e amanhã volto a pensar.
Dormir? Ah! Lucília nessa noite quase não dormiu. Mesmo acordada já dava voltas na cama a pensar como seria a vida de casada, e isso a deixava excitada e confusa.
De manhã, o mesmo ritual da caminhada, o padeiro, etc., e ao chegar a casa vê um carro à porta, ainda com o motorista dentro. Salvador.
- Eu sabia que tinha saído e não quis incomodar a sua mãe, de modo que esperei aqui fora. A missão a esta hora é para a convidar para almoçarmos. No mesmo restaurante, só que de dia para podermos ver bem o mar.
- Oh! Salvador. Mas que pressa! Entre, entre, enquanto eu arrumo as compras e, pelo menos preparo o almoço da minha mãe. Depois podemos sair.
A mãe da Lucília quando viu os dois entrar, ficou atenta, e assim que a filha se aproximou, piscou-lhe o olho, e cumprimentou, muito alegre, o Salvador.
De volta à estrada a caminho do restaurante, Salvador diz-lhe:
- Só falamos no nosso assunto depois de sentados. Pode dar-me um ataque ...
- Combinado.
Encomendado o almoço, e o vinho, Salvador limitou-se a perguntar se Lucília cumprira a promessa:
- Pensou?
- Pensei.
- E o que decidiu?
- Olhe, Salvador, nós, como lhe disse, não somos mais crianças, de modo que o risco é menor! Eu gostei, desde o primeiro instante, da sua educação e atitudes, e acho que nos podemos entender muito bem.
- Que maravilha. Quer dizer que a resposta é sim.
- É, mas tem alguns problemas que precisamos acertar: primeiro temos que nos conhecer melhor. Todos temos virtudes e defeitos e é bom conhecê-los antes do que ter, depois, surpresas desagradáveis. Outro assunto importante é que não posso abandonar a minha mãe. Você disse que queria construir ou comprar uma casa ou um apartamento, o que não vejo necessidade. Podemos ficar a viver na nossa casa, que é bastante grande e não nos tira liberdade. Vamos é ter a minha mãe quase sempre às refeições e na sala. Mas ela, pelo menos tanto quanto a conheço, nunca interferiu na vida de ninguém. Este é o problema principal.
- Como sabe eu trato a sua mãe por tia. Lembro dela desde criança, e tenho-lhe o maior respeito e simpatia. De modo que esse ponto é pacífico. Então está resolvido. Vamos casar. E depressa, que o tempo corre mais que o vento. Amanhã vamos tratar da documentação, e eu vou já falar com o Padre Manoel, o bom velhinho que me batizou. Ele vai ficar encantado.
Durante um mês os encontros eram diários. Discutiam assuntos de toda a sorte, riam, brincavam e passaram a conhecer-se!
Nem um mês depois, à porta da pequenina e antiga igreja de São Jorge, os noivos, deixavam-se fotografar, sozinhos, com a mãe, depois irmãs, com o já velhote e bom padre Manoel, etc., e seguiram todos para o almoço no restaurante que acabou por uni-los.
Tinham pressa os noivos. Precisavam começar logo a vida de casal. Deixaram os convidados na festa e foram para a lua de mel, na montanha. Lugar lindo, aquele friozinho que obriga a que os casais se abracem mais, passeios no parque, um sonho de que Lucília, e mesmo Salvador, não queriam acordar.
Amaram-se muito, trocaram juras de amor eterno, aquelas coisas que os noivos, em lua de mel costumam fazer. E estavam felizes.
De volta a casa, onde Lucília já tinha preparado o quarto deles e até uma salinha só para os dois, a vida corria calma, apesar de Salvador pensar que tinha que encontrar qualquer atividade, com o que Lucília concordou plenamente. Não tinha idade para se deixar sentado numa cadeira até ficar pateta.
Antes de aplicar qualquer dinheiro, pôs Lucília ao corrente de todos os seus bens, abriram contas em mais do que um banco no nome dos dois, e tudo quanto fizesse dali para a frente assim seria sempre.
Tinha um dinheiro bom, e procurou uma sociedade onde pudesse aplicar algum, estar ocupado e ter um rendimento. Encontrar um sócio capaz e sério não é fácil e demorou uns meses até que a oportunidade apareceu. Informou-se bem, pediu referências e avançou. Era no Porto, para onde teria que ir todos os dias. Afinal eram só uns trinta e poucos quilómetros e à tarde estaria de volta.
A primeira semana correu muito bem, quase só aprendendo a mexer-se dentro da firma de que tinha agora metade do capital, chegava a casa sorridente, um beijo na sogra, abraçava a mulher, convencendo-a, facilmente, a que se deitassem cedo. Tinha que trabalhar no dia seguinte, e ainda tinham que se amar. Recuperar as décadas desperdiçadas!
E a vida parecia ter entrado numa estrada perfeita.
Salvador ia para o trabalho de carro, conduzia sempre em baixa velocidade, assobiava descontraído ou ouvia uma música calma, para chegar à empresa sem qualquer estresse. E na volta o mesmo. Os meses corriam, sempre feliz com a escolha e a sorte que tivera.
O ritual se repetia; jantar com a velhota, um pouco de conversa na sala, e cama onde se amavam com as forças que a idade lhes permitia.
Numa noite, Salvador sentiu-se mal. Dor no peito, respiração difícil, chamam o médico, este leva-o a correr para o hospital, onde durante o resto na noite a equipa das urgências tentou salvar-lhe a vida. Salvador não resistiu.
Foi uma tragédia. Lucília não se conformava. Tantos anos tinha esperado, até que por fim encontrara um homem bom, educado, amigo, e poucos meses o teve! A mãe acompanhava-a na tristeza porque do mesmo modo se afeiçoara muito ao novo membro da família.
Dois anos depois a mãe seguiu o caminho do genro e, de repente, Lucília estava só. E triste. Já nem achava graça aos olhares do padeiro.
Continuar a viver naquela casa era disparate, muito grande, dava imenso trabalho e despesa, mesmo tendo ela herdado tudo que pertencera a Salvador, e não era pouco. Pôs a casa à venda e a melhor oferta que teve foi duma prima, da idade dela, que já não via há anos, mas que tinham sido muito amigas em novas. Morava no Porto e queria uma casa para sair da tumultuada cidade. Além disso, com tantos quartos, no verão, os filhos para ali viriam até com amigos passar as férias. Mantinham a casa no Porto para os filhos, alguns no começo da faculdade.
Tudo combinado e aceite por todas as irmãs, a prima e o marido, Natália e António, propuseram outro “negócio” à Lucília: ela ficaria a viver com eles, não precisava tirar ou vender as mobílias, nem se preocupar com a casa. Em troca, de vez em quando ela ficaria com os filhos deles, que durante a semana, na época de estudos ficavam no Porto, porque António muita vez viajava e gostava de levar a mulher.
Lucília achou a ideia boa, transformou o sótão num espaçoso quarto para deixar os novos proprietários mais à vontade, bem como ela ficaria.
A vida segue. Os primos eram gente educada e os filhos, dois rapazes de doze e dezesseis anos, e uma filha com quinze, sempre atenciosos, sem nunca darem preocupação, a casa ficou cheia de vida, o que alegrava a antiga proprietária.
Compartilhavam as refeições e a sala, conversavam, lembravam tempos de meninas, António via televisão ou lia o jornal, sem deixar de, volta por volta, fixar o olhar mais anatómico na nova prima.
Os invernos sempre frios naquele lugar, este parecia especialmente rigoroso. António mais uma vez teve que viajar dizendo que demoraria quatro ou cinco dias. Era habitual.
A prima convenceu Lucília a que na ausência do marido dormisse no quarto dela. A cama era bastante larga – dava para três ou quatro, segundo ela dizia – e evitavam estar a aquecer o frio quarto do sótão. Lucília achou meio estranho, mas lembrou que em novas tantas vezes tinham dormido juntas, que achou até boa a ideia.
Natália dormia como uma pedra. Assim que se deitava e cobria com a roupa, já não dava conta de nada, e ia direto até de manhã. Nem se mexia. Onde caía ficava, imóvel. Lucília, que levava mais tempo a adormecer, invejava tal capacidade, porque enquanto não adormecia, pela sua cabeça passavam todos os bons e maus bocados que vivera.
Desta vez António interrompeu a viagem mais cedo e regressou a casa noite alta. Foi para o quarto, despiu-se sem abrir a luz para não acordar a mulher e quando se ia a deitar tocou num corpo estranho!?
Lucília que estava meio adormecida, ao sentir aquele corpo encostar nela, toda tremeu. António, espantado, ia perguntar alguma coisa, quando Lucília lhe fez sinal que não falasse, apontando para a prima que dormia, e que a deixasse sair da cama. António ao querer ajudá-la, agarrou-a, viu que ela se deixava envolver e percebeu que tinha na mão uma fêmea carente.
Não hesitou, entrou com ela na cama e não a largou mais. Lucília deixava-o fazer tudo, e não queria grandes evoluções para não acordar a prima que dormia como pedra, ali mesmo ao lado deles!
António explorou aquele presente que acabava de encontrar, e Lucília do mesmo modo pensava no seu querido Salvador.
Quando terminaram, Lucília, envergonhada e ao mesmo tempo satisfeita, sai correndo e vai para o seu quarto que encontrou gelado. António, sabendo que a mulher não acordava até de manhã, mais ainda sabendo que ele estava em viagem, decidiu segui-la. Lucília pediu-lhe que não insistisse. Já tinham entrado em terreno perigoso.
António via agora uma mulher acordada, cheia de vida na cama, coisa que para ele se ia tornando raridade. Cada vez que ele se preparava para ter relações com a mulher tinha que se deitar antes dela, porque sabia que quando ela caía na cama, apagava. Assim, já a esperava, agarrava-a logo, e não a deixava adormecer!
Agora não.
Aquela primeira noite fora um delírio, mas, e daqui para a frente, como fazer? Sempre havia a hipótese de deixar Natália adormecer e depois subir mais um andar, mas era jogo perigoso e António não queria pôr o casamento em perigo.
No dia seguinte a mesma rotina, Natália admirada do marido ter voltado mais cedo, que ele explicou com um argumento qualquer, e na sala, após o jantar, a mesma conversa, e mais olhares do António, sem que Natália se apercebesse.
Lucília voltou a dormir no seu quarto, mas sempre dizia que não precisava de aquecimento, porque os cobertores a mantinham bem aquecida durante a noite.
Os cobertores, e António, que assim que recuperava as forças, à socapa, depois da mulher desmaiar no sono, subia ligeiro aquele último lance de escadas para se enfiar debaixo das calorosas cobertas que estavam sempre dispostas a recebê-lo.
Não adiantava vir para casa mais cedo, porque a hora do encontro nas alturas, literalmente, só depois de Natália adormecer, e não era capaz de conceber outro local onde pudessem satisfazer-se mais vezes.
Surgiu uma grande hipótese. A filha precisava de ir a Lisboa prestar provas para um estágio, importante para ela. Teria que ficar uns três ou quatro dias na capital. Natália disse que a acompanharia e a vida em casa e no Porto continuaria como sempre, com o que o marido concordou na hora.
Como sempre... foi a melhor esperança para António. Ia ficar em casa, sozinho com a prima! No dia em que a mulher e a filha seguiram para Lisboa, António aproveitou e foi mais cedo para casa. Lucília, apesar do inverno não ter terminado, os dias começavam a ter algum sol e a excitar as glândulas do amor, vestiu-se com roupa mais leve, mais colorida, sentindo-se rejuvenescer e parecer mais atraente. Nem precisava.
Lucília não era menina, mas continuava atraente, e além do espelho, bem via a cara e os sussurros do padeiro. No íntimo... até gostava. Era bom para o ego. Agora então, sentindo-se tão desejada...
Durante a ausência de Natália, António sempre voltou para casa mais cedo. Jantavam qualquer coisa e acabavam dormindo juntos. Bem juntos.
E começava a pôr a questão se amava mais a cunhada, ou se era simples questão de sexo.
António já quase deixara de esperar na cama que a mulher se deitasse. Mas Natália começou a notar que os seus jogos de amor estavam a rarear, e um dia, em vez de se deitar logo, deixou-se ficar na borda da cama à espera do marido, que estranhou.
- António. Há muito que não esperas por mim na cama! O que se passa? Já não me amas, ou não me queres?
- Que pergunta tola, Natália. Quantas vezes eu quero agarrar-te e fazer amor contigo e tu me respondes com um ronco. Ainda para mais continuo a achar-te uma mulher bonita, a quem muito quero. Mas tu adormeces que nem pedra, o que posso eu fazer? Vontade tenho eu, e às vezes muita, mas, e tu?
- Então vem cá. Vamos nos amar mais um pouco.
Começava a não ser tão fácil. António tinha que acudir a dois lados. Como?
Os meses passavam, António subia aqueles degraus sempre que podia, enquanto Natália como que estátua de pedra nos braços de Morfeu, dormia.
Uma tarde António chega a casa com um amigo espanhol. Manolo, boa figura, a aproximar-se dos sessenta, vivia em Málaga e tinha negócios com António. Eram amigos e viam-se com regularidade.
Apresentou a mulher e a cunhada, onde Manolo não pôde deixar de reter o olhar por mais uns instantes.
António tinha-o convidado para jantar em casa, ao que Natália se opôs; era melhor irem a um restaurante. Depois voltariam para o café e até sugeriram que Manolo dormisse no quarto vago de um dos filhos. De manhã, os dois sairiam cedo e ele regressaria a Espanha.
Jantar simpático, alegre, e como Manolo se tinha separado da mulher há largos anos, António, meio brincando, meio a sério, atira-lhe:
- Manolo. Aqui tem uma mulher linda à sua espera. Lucília enviuvou há uns quatro anos, continua linda e é uma magnífica dona de casa. Porque você não dá um passo em frente e casa com ela? Fariam um casal maravilhoso.
- Oh! António! Você está louco? – Disseram Natália e Lucília ao mesmo tempo.
Manolo ficou meio sem jeito, mas olhou melhor para Lucília, e no seu íntimo, algo lhe começou a dizer que era uma solução interessante e até apetecível.
- Sabes, António, Lucília é, sem dúvida, uma mulher muito interessante, mas nunca vi fazer-se um casamento entre dois pratos dum jantar! E depois, casamento é coisa que só os dois podem analisar. Agradeço muito a sugestão, mas não me parece indicado falar sobre isso. É, com certeza constrangedor para a Lucília.
- Então bebamos mais um copo à vossa saúde, e algo me diz que ambos ficarão a pensar nisso.
Findo o jantar, de volta a casa, café, um vinho do Porto, um pouco mais de conversa, e a noite chega ao fim. Natália com o vinho que bebera pede licença para se retirar, com o marido tendo que a ajudar a deitar-se, na certeza de que nessa noite, a mulher seria ainda mais pedra do que o costume!
Deixaram Lucília e Manolo, sós, na sala. Sem saberem o que dizer, olhavam-se.
Manolo arriscou:
- Lucília desculpe a brincadeira do jantar. Até eu não me senti à vontade.
- Não se preocupe. António volta e meia gosta destas coisas.
- Mas sabe? A verdade é que eu fiquei a pensar nisso, e agora que estamos aqui sós, devo confessar que a acho uma mulher muito atraente. E para quem vive só, uma companhia é o sonho de todos os dias.
- Manolo. Se quer pensar no assunto, volte para casa, pense bem, e depois me comunique.
- Sou livre, nada me impede.
Lucília serve-lhe mais um cálice de Porto, enche também o dela, que levantam e bebem à saúde e boa decisão de cada um.
- Com esta conversa até me parece que pensei em tudo! Mas o melhor é irmos dormir.
“Não me parece uma solução para desprezar. Vamos ver o que ele me vai dizer. Sem correria”.
Estava a despir-se para se deitar quando viu António entrar. Subiu descalço para que o convidado nada ouvisse, e começou a falar bem baixinho, a sussurrar.
- Lucília, eu fiz isto tudo, mas estou apavorado com medo de perder-te!
- Você é meio louco. Deixou o Manolo envergonhado, ele que me parece uma pessoa equilibrada.
- Brincando, brincando, eu falei a sério no casamento, e creio que esta semente vai dar frutos.
- Por favor. Sai do meu quarto.
António voltou, pé ante pé para o quarto, de manhã saiu com Manolo que ao despedir-se, depois de muito ter agradecido as atenções disse a Lucília:
- Breve terá notícias minhas. Que notícias? Por ora nada sei!
- Não precisa ficar preocupado. Deus sabe o que vai acontecer. Adeus.
Uma semana mais tarde, Lucília, que já aguardava há dias uma resposta, recebeu o telefonema.
- Lucília. Vou aí no fim de semana e ficarei uns dias. Mas não se preocupem. Eu prefiro ficar no hotel.
Aquilo já era “quase” o pedido de casamento, e Lucília começou a preparar-se.
Sábado à noite chegou. Domingo, levou-a para almoçar e pôs logo tudo a limpo: “queria casar com ela.”
Lucília estava muito indecisa. Se por um lado o desejava, por outro tinha medo de entrar numa gaiola, que mesmo de cristal seria uma gaiola.
- Manolo. Já temos idade para não jogar o resto das nossas vidas fora. Eu nunca trabalhei, apesar dos estudos que fiz, mas não quero ficar em casa, limpando o pó e esperar que o marido volte.
- Que estudos você tem?
- Psicologia, na Faculdade do Porto.
- Mas isso é interessantíssimo. Pode trabalhar na minha empresa. No departamento de pessoal. Isso seria uma maravilha. Jamais pensei que poderia ter uma esposa e ao mesmo tempo um auxiliar competente e de total confiança num dos postos chaves da empresa. Se pudesse casava já hoje! E mesmo que não casemos o cargo na empresa já é seu!
- Manolo, façamos o seguinte: podemos preparar um casamento civil que é rápido, deixando o religioso para quando se tiver reunido toda a necessária documentação. E podemos até fazer isso em Espanha.
- Isso quer dizer o sim que eu esperava. Estou encantado.
- Podemos regressar a Málaga já no princípio da semana.
- Calma. Tenho que deixar assuntos resolvidos, preparar roupas, que é o mais fácil, mas tudo quanto herdei do meu marido e que tenho administrado, tem que ficar seguro.
- Podemos voltar aqui sempre que você quiser. Isso não é problema.
- Entonces mi querido novio, brindemos ao nosso futuro.
Beberam um copo de vinho, levantaram-se abraçaram-se e deram um beijo ... cerimonioso.
- Vamos dar a notícia a António e Natália, ou antes, vamos os dois passear na praia, conversarmos, para nos conhecermos melhor, e convidamo-los depois para jantar.
Combinaram o jantar e foram passear na praia, e contaram, contaram, a vida de cada um. Como tinham vivido casados, o que sucedeu. Ele disse que tinha dois filhos ambos casados, que não interferiam minimamente na sua vida, e três netos, e ela contou que durante anos tudo quanto fez foi tomar conta da mãe, depois o casamento e o desastre que a enviuvou, e... agora a vida monótona (!) com os primos.
O jantar correu animado, Lucília anunciou que seguiria na próxima semana para Málaga; muitos votos de felicidades, brindes ao futuro. Natália animada participava nos brindes e na conversa, ela habitualmente reservada.
Estava a sentir-se aliviada vendo a prima ir embora? Saberia das noitadas com o marido, apesar de jamais ter mostrado qualquer desconfiança? No mínimo, estranho.
Beberam, brindaram, o jantar chegou ao fim, deixaram Manolo no Hotel e os três regressaram a casa.
Como de costume Natália caiu na cama e apagou. Lucília foi fazendo sinal ao primo que nessa noite não haveria “festa” e no seu quarto começou a arrumar o que queria levar para a nova vida, e a preparar-se para no dia seguinte estudar como deixar o seu património assegurado.
Foi ao Porto falar com o sócio da empresa onde Salvador tinha participação, e disse-lhe que queria vender a parte dela. Eles que lhe fizessem uma proposta.
Tudo estava a compor-se com rapidez. Três dias depois telefonou a Manolo e disse-lhe que seguiria no dia seguinte num voo para Málaga. À noite em casa, Lucília avisou que ia embora no dia seguinte.
Natália, de lágrima no olho desejou-lhe as maiores felicidades. Assim como António, mas deixaram claro que a casa continuava sempre aberta e o quarto “lá de cima” a aguardava sempre que quisesse voltar, ou para férias, ou como entendesse.
Deitados, Natália e António comentaram:
- Acho que a prima vai-se dar muito bem. Manolo é uma excelente pessoa. Assim o espero.
Natália:
- Não queres ir lá acima, mais uma vez, despedires-te dela?
Virou-se para o lado e adormeceu.
- !!!!!!!!!!!


18/03/2014