segunda-feira, 26 de setembro de 2016




O Padre José Maria

Obra da Rua – Casa do Gaiato

Há já anos que a Obra da Rua procura canonizar o grande Homem que foi o Padre Américo Monteiro de Aguiar, o fundador desta Obra maravilhosa. E não tem conseguido.
Acabo de receber a notícia que outro dos Grandes Homens que abraçaram esta Obra, em idade avançada, e há vários anos a sofrer dum mal incurável, estaria deixando esta Terra onde tanto bem e tanto se dedicou sempre aos outros de forma integral, total, humilde.
O meu muito querido amigo, irmão, exemplo, o Padre José Maria que conheci em Lourenço Marques em 1971.
Fez uma grandiosa Obra em Moçambique. Há anos a sofrer, e conseguindo, Deus sabe com que sacrifício, esquecer as dores físicas, para continuar, simples como as criancinhas que Jesus chamou para o seu lado, a trabalhar arduamente para que a Obra da Rua não parasse e seguisse sempre em frente com a sua Casa do Gaiato, as creches, os postos de saúde, a construção de casas para velhinhos que tudo haviam perdido e com outras inúmeras ações e problemas.
Neste momento está, lá no altíssimo, o Cristo, de braços abertos, à espera da alma de um Homem que cumpriu, integralmente com o ensinamento: “amai aos outros como a ti mesmo... sobretudo as criancinhas”!
“Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”.
Além da muita admiração e profundo respeito pela sua dedicação, aliás doação total da sua vida, uma amizade muito profunda nos unia, certamente fruto da minha pequenez humana face à grandeza da alma deste irmão.
Lembro com imensa saudade ver o Padre Zé, aos domingos, na linda capela que ele projetou e lá está na Casa de Moçambique, fazer a sua homilia para aqueles fiéis moçambicanos que mal falavam português. Padre Zé, sem nunca ter perdido o seu sotaque do norte de Portugal, voz baixa, sem microfone, seu ar humilde, sua imensa simplicidade, falava àquele povo que o ouvia em profundo e respeitoso silêncio, sem possivelmente entender o que ele dizia. Não precisavam entender. Na frente deles estava um homem de Deus, que os amava, e daquela alma, daquela boca, só podiam sair palavras que os abraçava a todos, no mesmo abraço fraternal, no abraço do Cristo que os amava.
Outro homem que deveria ser canonizado.
A vida segue. Mas o Padre Zé vai fazer muita falta.
Até a mim que há anos estou a milhares de quilómetros de distância, mas não esqueço aquela figura amiga de Homem de Deus, do seu exemplo, da sua amizade.
Impossível não deixar rolar cara abaixo umas quantas lágrimas.
A verdade é que nos sentimos mais pobres.
De dor, saudade, ternura, e muito respeito.
Que o Senhor tenha piedade de nós, os egoístas.
À Irmã Quitéria, que admiro profundamente, e que fica agora responsável por aquela admirável Obra em Moçambique, todo o meu carinho, amizade e respeito.
Que Deus a ampare, sempre.


25/09/2016

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Mais duas “Cartas do Brasil”

SAUDADE  DE  ÁFRICA

Se não tivesse escrito estas “Cartas do Brasil” estaria possivelmente a estas horas a escrevê-las ainda de Angola ou Moçambique! Vivi, vivi muito intensamente naquelas paragens mais de vinte anos, e até hoje guardo uma forte saudade daquele tempo, daquelas terras, daquelas gentes. Até do clima de Luanda que era mais bravo que o do Rio, com temperaturas menos altas mas teor de umidade mais elevado. O que lhe valia eram aquelas praias e a Ilha, maravilhosas...
Quando os (des)governantes da revolução de Abril (os meses escrevem-se mesmo com maiúscula) concluíram, na conferência de Alvor, que os únicos representantes das colônias eram os africanos, eu não tive dificuldade em verificar que, apesar do meu coração vibrar por África, a minha pele era clara! Dei o fora. Vim para o Brasil que me abriu as portas. Como um parente pobre, que tendo um só pão para comer, sem regatear, o dividiu comigo. Nessas alturas o meu país considerava-me fascista só porque ao fim de vinte e cinco anos de trabalho eu tinha atingido um escalão alto na hierarquia da minha profissão! Achei que era melhor não me meter no meio duma briga, que eu certamente acabaria por comprar, e aceitei o pão, suado, que o Brasil me oferecia.
Comi pão duro, mas dado com carinho, e à medida que a qualidade do pão foi melhorando procurei reparti-lo. Ao meu lado trabalham hoje (sim, porque eu ainda trabalho! Os meus vinte anos de África... a (in)segurança social portuguesa - tudo com minúsculas - não considera para me aposentar! Um dia volto a falar nisto.) mas estava dizendo que ao meu lado trabalha gente de todas as cores. Desde louros de olhos azuis, brasileiros há tantas gerações que desconhecem as suas origens, até um angolano de M´Banza Congo, que a fome fez imigrar há cerca de dois anos.
Como é de calcular, em mais de vinte anos de trabalho em África, juntei alguma coisa, sobretudo apertei o cinto para comprar uma casa. Casa, sendo um bem imóvel, teve que ficar, lá onde foi construída. Para mim acabou sendo, não um bem, mas um mal imóvel. Mais valia ter bebido o dinheiro que ali, tão suado, chorado e desperdiçado, investi. E se havia onde beber!
Mas os capitães de Abril, depois que enfiaram os cravos nas espingardas, fotografaram-se em posição de conquistadores do mundo, e... deixaram o país ao desgoverno. Total. Os líderes africanos, ao verem tamanha falta de disciplina e vergonha, impuseram as suas condições para a independência, como vencedores duma guerra que, para eles, não estava perdida, quando muito empatada. Quem por fim capitulou, vergonhosamente, foi Portugal. Abandonou os povos africanos e os timorenses ao seu triste destino e os portugueses que lá viviam aos seus próprios cuidados.
Tinha que acabar a guerra colonial? Evidente. Nunca devia ter começado. Mas não se podia ter virado costas. Uma página de vergonha na história de Portugal. Para esquecer, o que é difícil.
Mas, esta deveria ser uma Carta do Brasil. A saudade leva-me para África, e daqui a ter que me lembrar dos (in)capazes, os (ir)responsáveis pelo tal (des)governo que teve consequências dramáticas.
Veio muita gente de Angola e Moçambique para o Brasil. Não posso garantir se a maioria ficou ou acabou regressando a Portugal. Os que ficaram, quando descobrem alguém que andou por aquelas terras, ganham logo um novo amigo, e a conversa vai voando para as gambas de Luanda ou do Alto Maé, uma pescaria na baía de Benguela ou em Vilanculos, o encontro dos três mundos na Ilha de Moçambique, a beleza da Tunda Vala ou da Gorongosa, e acaba sempre com uns finos, que aqui são chopes! Há um não sei quê que veio d´além-mar que envolve as pessoas ad aeternum e de onde não adianta fugir, o que aliás ninguém quer. As recordações daquele tempo são muito fortes.
Ir à Bahia, onde veio viver e acabou morrendo o grande pintor angolano e muito querido amigo Albano Neves e Sousa, é quase uma viagem a Angola. Apesar da grande influência do Candomblé, trazido da região do Benin, em cada canto há um jeito de ser angolano, um requebro, um ensaio de capoeira. E, dando à cidade do Salvador um toque de magia, de conto de fadas, as baianas, gordas ou magras, velhas ou novas, impecavelmente vestidas de branco, só me lembram as mamanas de Luanda, imponentes nos seus trajes impecavelmente pretos.
Estas vendiam legumes, frutas e pescado. Às vezes uns doces que a garotada adorava. Aquelas vendem acarajé, um bolinho feito de feijão fradinho, frito em azeite de dendê, servido com molho de pimenta, cebola e camarão! Uma delícia afro-baiana.
Em todas o mesmo sorriso simpático, as mesmas palavras carinhosas que nos deixam ficar suspensos no meio do Atlântico, desejando voltar aos tempos de menino e pedir que uma Mãe Preta nos acarinhe e cante uma cantiga de ninar!
Nestas condições eu até me proporia ser menino de novo!

Jornal “ O Dia” - 01/06/99
***

ALÔ!  ALÔ!  ESTÁ  LÁ?
Lusíadas, Canto III, 5
Além disso, o que a tudo enfim me obriga
É não poder mentir no que disser,
Porque de feitos tais, por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer.

Este intróito só pretende levar os leitores a ficarem com maior certeza de que o que escrevo, pode ter mais ou menos floreados, mas mentira não é. Pode ser inacreditável, anedótico ou triste conforme o angulo ou a disposição de quem lê, mas é verdade.
A minha opinião sobre este imenso país está expressa, impressa e divulgada. Tem um povo maravilhoso, mas... de vez em quando, como diz um primeiro ministro muito conhecido nessa terrinha, isto parece a famigerada república das bananas.
No caminho do progresso e da desburocratização, o governo tem privatizado tudo quanto pode. Bem ou mal vai deixando de ser empresário, péssimo empresário aliás, para procurar centrar as suas atenções no óbvio. Assim pensam muitos como eu que acham que o governo, quase sempre desnecessário - a Itália já o demonstrou - tem que se preocupar com a saúde e educação e pouco mais. O resto é acessório, como por exemplo justiça, já que as leis dos homens... feitas pelos poderosos, dificilmente são igualitárias para os pobres ou miseráveis.
Continuemos a privatizar. Privatizou-se a rede de telefonia, dividindo-se o país em diversas áreas, separando-se a telefonia tradicional, fixa, da celular, móvel, e passou-se esse serviço para empresas concessionárias, entre as quais está um grupo português. Aplausos.
Há dias procedeu-se à separação do “que é de quem” introduzindo-se prefixos vários dando a opção ao usuário de servir-se de uma ou outra prestadora desses serviços.
Os jornais, tv, rádio, outdoors, indicavam mais ou menos: fale pelo 27 que é melhor, ou ligue pelo 35 que é o máximo, etc. sem que alguma explicitasse qual ou quais as vantagens de utilizar esta ou aquela servidora. Mas, tudo bem, brasileiro é paciente e aguardou para ver o que a concorrência lhe proporcionaria, se é que...
“Um... Dois... Três!” A partir das zero horas do dia “D”, felizmente na noite de sexta para um sábado, entrou o novo sistema em ação. Foi o fim da macacada! O sistema embananou-se de tal forma que ninguém conseguiu fazer uma ligação interurbana! Ligava-se para as informações e a resposta, mecanizada, informatizada, respondia as mesmas parvoeiras que na véspera! Ligava-se para a nova empresa e ela respondia o mesmo, isto é, nada. Todos perdidos. Um caos! Ninguém se entendia. E assim se passou o sábado e domingo.
Segunda feira o assunto, como é evidente, era manchete nos jornais, nos noticiários de tv, etc. Afirmava o presidente da Anatel - Agência Nacional de Telecomunicações - órgão governamental encarregado de supervisionar e fiscalizar o serviço das concessionárias, que a culpa era das ditas. Estas, que era daquela. O ministro da justiça - letra minúscula é melhor - atribuía o desastre ao Ministério das Comunicações, zangavam-se os dois, e o problema, resolver-se é que nada.
Vai levar uma semana a normalizar! informaram os órgãos de informação!
Ao fim de quase quatro dias, sexa, o Presidente da República decidiu intervir, pessoalmente. E montou um circo. Informação presente e os dois ministros em causa: Então o que se passa com as ligações interurbanas? Quero isso pronto em 72 horas.
Brilhante! Já o público estava informado que as empresas iam levar 72 horas para resolver a vergonha, quando o Presidente, energicamente, exigiu o mesmo prazo. Vejam lá se não é comovente! Dá a sensação que o governo durante os primeiros quatro dias não sabia o que se passava!
Dá para conceber um país de 180 milhões habitantes ficar com os telefones todos, todos não, mas três quartas partes deles, sim, sem conseguirem comunicar-se? Não dá.
O defeito terá sido no programa do computador. Como sempre o computador é que paga! Mas mexer num sistema que funcionava muito bem sem que se tivesse testado exaustivamente primeiro um outro, não parece coisa de empresas de primeiro mundo!
Três dias depois, as reclamações oficialmente registradas - em Portugal seriam registadas -  eram cento e quarenta e quatro mil cento e oitenta e duas! Isto porque o brasileiro é bom, calmo, paciente, e está já condicionado a ter que esperar, sofrer e, no fim... pagar! Porque se fosse na Alemanha que tem só 60 milhões de habitantes, as reclamações teriam sido 20 milhões, admitindo que cada lar tem três habitantes! Nem um só se calaria. Exigiriam que o Bundesverfassungsgericht propusesse ao Oberlandesgericht que demitisse o Bundesregierung e ainda os membros do Bundestag e do Bundesrat, e apoiariam em uníssono o regresso de outro Hitler para arrumar a casa!
Mas aqui... não é a Alemanha, graças ao bom Deus que será brasileiro, segundo se diz e até se acredita. Mesmo que se procurasse com uma lupa não se encontraria nenhum Hitler, e se por milagre do demo aparecesse, não estaria disponível! Mas no que tange a Bundes... ahh! isso é outra história, porque enquanto na Alemanha as bundes parece pertenceram exclusivamente à política, aqui, como uma ligeira tradução, bundas, são altamente democratizadas. São de todo o povo, e por isso, neste país jamais alguém se atreveria a demitir uma única bunda! Pelo contrário.
Alô! Alô! Está lá?  Não. As Bundas estão cá!
Então? Deus é brasileiro ou não é?

Pequeno léxico para ajudar os menos práticos na língua tedesco-política:
Bundesverfassungsgericht - Tribunal Federal Constitucional
Oberlandesgericht - Suprema Corte
Bundesregierung - Governo Federal
Bundestag - Câmara baixa.
Bundesrat - Câmara alta.


Junho  1999

quinta-feira, 15 de setembro de 2016




Reprodução de algumas “Cartas do Brasil” escritas em 1999 e publicadas no defunto jornal “O Dia” de Lisboa.
Curioso notar como os problemas, dezessete anos depois, permanecem, infelizmente, atuais.
Dessas “Cartas” fez-se um livrinho e, à laia de introdução escrevi o “Porquê” das ditas.
Aqui vão algumas.

O  PORQUÊ  DESTAS  “CARTAS”


Porquê? Primeiro, porque me apeteceu escrevê-las! Elas representam a opinião de um imigrante português, a quem o Brasil, como sempre e a todos, abriu as portas e os braços.
As fronteiras do mundo vão caindo, e mais do que nunca qualquer cidadão, estrangeiro ou não, deve participar ativamente no processo de desenvolvimento do país onde vive.
O convencional xenofobismo para com os portugueses, desenvolvido basicamente durante o período do império, se foi desagradável, e ainda o é, mas já raro, para os patrícios, teve a virtude de unir à volta da figura do imperador, sobretudo D. Pedro II, os dezoito estados de que se compunha então o jovem país, uma monarquia perdida num mundo tropical, cheio de problemas e de novos e revolucionários conceitos de liberdade e republicanismo que estavam a conquistar o mundo. O Reino, aliás Império do Brasil, pôde assim ter-se mantido como o maior país da América do Sul.
Se não se tivesse conseguido encontrar um inimigo comum, contra quem unir o povo, o país talvez se tivesse dividido em mais dezoito republiquitas, algumas miseráveis, como aconteceu com os territórios de língua castelhana.
Por essa razão, e só por essa, creio que foi útil ter-se criado, muito artificialmente, o tal inimigo público! Na ocasião era de bom tom mudar-se o nome de Costa, ou Pereira ou Araújo para Ipiacaba, Paraguaçu ou Tibiriçá, para ser brasileiro autêntico, ignorando-se a maioria da população negra, porque já não era de bom tom ter-se um Imperador de escravos!
Se deste modo o Brasil atingiu os objetivos que ambicionava, ainda bem que descobriram um inimigo dentro da família! Não houve que dar satisfações a ninguém mais. Foi uma briga de família, que está sanada.
Apesar de tudo, e individualmente, o brasileiro sempre teve, e tem, muito carinho pelos portugueses. Quem não tem um pai, tio, avô, bisavô ou bisavó português?
Quem não está sempre sonhando em poder, um dia, quando ?, visitar a terra dos seus antepassados, comer um bom chouriço e beber um copo de vinho tirado da pipa?
No fundo, bem lá no fundo, todos têm esse sonho, irrealizável, infelizmente, para a grande maioria da população.
O imigrante português tem uma característica que possivelmente lhe é quase exclusiva: a terra que o acolhe é tão sua como a que o viu nascer. Nela trabalha, luta, vibra, cria raízes e família e por ela dá a sua vida.
Os problemas que a afligem tiram-lhe também o sossego e o sono. Discute política e economia com o mesmo fervor que outro qualquer natural. E porque não?
As opiniões manifestadas nas “Cartas”, que foram publicadas em jornais de Portugal, tiveram como finalidade ajudar a denunciar e criticar a prepotência e erros dos mandões, sempre procurando deixar bem clara a minha extrema simpatia por um povo simples e com um coração grande, aberto, imenso, tal como as suas intermináveis fronteiras o configuram.
Por isso o Brasil é assim: AME-O  OU  DEIXE-O.

Dezembro, 1999
***

ALÔ!  MEU  BEM!

Ninguém sabe ao certo há quanto tempo o homem chegou a estas regiões brasílicas. Dez mil? Vinte mil? Quinhentos mil anos? O que importa? A culpa de tudo o que acontece é, efetivamente, de uma tal Eva, africana, que terá sido a mãe de toda a humanidade!
Como devem calcular os queixumes e lamúrias deste povo não vão tão longe, até porque não tem bem a certeza de que essa senhora tenha sido sua antepassada! Mas os portugueses, esses sim, continuam sendo, ainda hoje, 177 anos depois do grito que o senhor Pedro I / IV terá dado às margens do Ipiranga, por alguns mentecaptos complexados, acusados de muitas das desgraças do país. Os arrependidos destes antepassados suspiram: Ah! se tivéssemos sido colonizados pelos ingleses...
Acho que têm razão, porque se em vez de portugueses aqui se tivessem estabelecido ingleses, holandeses, ou outros, os problemas talvez nem teriam começado. Explico: em primeiro lugar a história mostra que o único europeu que se aguentou neste clima bravo foi o português, o que não é de todo verdade. Quem se aguentou mesmo foram os filhos que ele foi deixando, cruzamentos com qualquer outra raça. Mamelucos e mulatos e depois a mistura entre estes, que absorveram a cultura, pouca ou muita dos pais, a sua determinação e grande adaptabilidade e a resistência e a afabilidade das mães, naturais dos trópicos. E de toda esta mistura fez-se um povo que pode ter muitos defeitos (quem não tem?) mas onde ninguém sequer vislumbra a menor hipótese de um dia poder surgir um confronto racial. Desde o mais escuro, com pele azulada ao mais branquela, tipo finlandês, Olhos escuros ou azuis, todos bebem caipirinha, dançam o samba, dividem o mísero espaço das favelas, dos bairros de classe média ou outros e são todos brasileiros.
Isto significa que se os tais pioneiros, portugueses, não se tivessem aguentado e lutado bravamente para expandir até aos Andes a sua área de atuação, o Brasil hoje seria... o quê?
Viver nos Estados Unidos, ou até em Portugal pode ser muito melhor em termos econômicos, mas onde é que por esses lados se encontra alguém, que nunca se viu e com quem se vai tratar de negócios, ou nos atender numa loja ou somente vender o bilhete do ônibus e que, em vez de falar secamente sem sequer nos olhar de frente, nos trata por Meu bem, Meu amor, envolvendo-nos numa doçura que nos faz pensar sermos o Tarzan? E ninguém faz isto com intenção maldosa ou inequívoca. É natural. É simpático. É humano. É Brasil.
Só esta ternura vale pelo calor que se sofre durante o verão, e não só. Não alivia a miséria, mas atenua as agruras da vida, parecendo que nesta terra sempre tem uma mãe extra para nos acarinhar.
Ainda hoje telefonei para uma empresa reclamando sobre um disparatado aumento dos preços dos seus produtos, e a dona Lurdes, do departamento de vendas que me atendeu, só me dizia: Meu bem, eu acho que eles (aqui o “eles” eram os seus patrões!) não sabem o que fazem. Eu se fosse cliente deixava de comprar os nossos produtos e eles então iam ver! Olhe, meu amor, vou lhe dar o telefone dum representante nosso que talvez o possa ajudar!
A dona Lurdes pode não ser a melhor escrava que a empresa precisa, mas é no mínimo uma mulher corajosa, sensata e extremamente simpática! Não sei se alguma vez vou ter oportunidade de conhecer pessoalmente esta senhora, mas amanhã vou mandar-lhe uma rosa. A rosa aliás nada vale perto da sua simpatia!
Um dos grandes males deste país é a ganância. Todos querem enriquecer, hoje! Pudera, não. O governo interfere constantemente na economia, e não permite que se façam planos a médio prazo. O longo então é inexistente.
A máquina administrativa além de ineficiente (como em todo o lado tem funcionários ótimos, infelizmente minoria) cria leis para complicar o empresário, o trabalhador e o próprio funcionário público, beneficiando unicamente os fiscais, que como varejeiras proliferam nesta terra. E inventam maneira de extorquir alguma coisa de quem quer trabalhar.
Uma dessas fiscalizações levou há dias de um supermercado, mais de duzentas caixas de produtos alimentícios de um só fabricante, para conferir se os pesos estavam dentro do indicado! Diz a lei que podem levar até trinta, trinta, peças de cada produto para estabelecer a média! Por aqui já se vê como é fácil! Muito bem, no fim de exaustivo exame oficiaram ao fabricante, mandando retificar a embalagem onde encontraram um item passivo de autuação, por não estar de acordo com a lei: a abreviatura de grama não pode ser gr mas sim g. Assim se zela pela segurança do consumidor!
No mesmo dia uma senhora, para aproveitar uma destas tardes frescas que de quando em vez tornam o Rio um paraíso de temperatura, foi para um jardim em frente em sua casa passear com um netinho de um ano de idade. Bebê no colo. De repente um impacto. Uma bala perdida, vinda lá dum morro qualquer, acertou a criança que morreu. Incrível, horroroso, inaceitável. Não adianta perguntar onde Deus estava naquele momento. Em todos os momentos do dia, em toda a parte do mundo, parece que Deus não está em lugar algum. Talvez esteja arrependido de ter descansado no sétimo dia. Algo ficou imperfeito. O homem.
Os morros do Rio são uma desgraça. Onde nem o exército entra. Os morros, as favelas, são territórios autônomos que vivem sob o absoluto comando do tráfego de drogas, onde crianças de dez e doze anos manejam metralhadoras de guerra como quem brinca com um carrinho de plástico. Dinheiro para brinquedos para as crianças pode não haver. Mas não falta para comprar qualquer tipo de armamento. Até lança mísseis já lá foram encontrados.
É o mundo cão.
No meio de tanta confusão quem não gosta de ouvir de uma desconhecida, numa voz doce e melodiosa: Alô, meu bem!  


Jornal “O Dia” - 12/05/99

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

 

De Angola, algumas histórias


1.- História quase triste
A Crise do Congo ex-belga entre 1960-1966 foi um período de imensa agitação que terminou com a tomada do poder por Mobutu. A crise tomou várias formas, entre elas as lutas anticoloniais (de uma forma geral os belgas eram detestados), conflitos tribais, uma guerra separatista no Katanga, um descalabro, com uma onda de violência e de selvajaria assolando todo o país, que causou a morte a mais de 100.000 pessoas.
Os brancos que lá viviam, muitos deles desde nascença, tiveram que fugir de qualquer modo. A Bélgica mandou buscar os seus súbditos. Portugal parece que até hoje não sabe o que são súbditos!
Um grupo de cerca de uma dúzia de pessoas, em dois jeeps, um deles carregando uma metralhadora, que felizmente não foi utilizada, conseguiu atravessar por pequenas picadas até Angola.
Desse grupo fez parte um casal, com dois filhos pequenos. Ele dizia que tinha trabalhado numa fábrica de cerveja e foi pedir emprego na Cuca, onde foi admitido para um departamento que se criou, de estatística.
Calado, cumpridor, mas sempre um ar de infelicidade. Volta e meia não ia trabalhar. O seu abatimento psíquico não recuperava com facilidade. Tudo quanto tinham haviam perdido. Agora estavam mais tranquilos, vida a refazer-se, crianças na escola, apesar de em Angola ter já começado o “terrorismo” que não se fazia sentir em Luanda.
Um belo dia o Dias – era este o seu sobrenome – sentiu-se pior e foi internado na casa de saúde com quem a Cuca tinha convénio.
Fomos visitá-lo. Estava abatido e o médico, um coimbrão inveterado, tratava-o de transtornos psíquicos. Todos os dias procurávamos saber da sua saúde, sem receber nenhuma notícia de melhora.
Uma tarde, estava eu a entrar para o meu carro para seguir para Nova Lisboa (Huambo) o porteiro vem a correr dizer que a esposa do sr. Dias queria falar comigo e era muito urgente. Fui atender.
“Só para informar que vou levar o meu marido para casa. Assim ele morre ao pé da mulher e dos filhos.”
Fiquei aterrado! O que se passaria? Ela disse que o médico não o tratava, que ela estava a vê-lo definhar e via que ele ia morrer logo.
Pedi-lhe para não fazer nada. “Vou já para aí.”
Já não fiz a viagem para o sul. Pedi na Companhia que procurassem o médico dele e que corresse para a casa de saúde, onde fui encontrar o doente com um aspecto horrível: muito magro, cor acastanhada, sofrendo.
O médico não apareceu; entretanto entrou o diretor da clínica, um bom cirurgião, a quem contei o que se passava. Respondeu-me que era responsabilidade do médico dele.
“Não, não é, doutor. É sua. O senhor é o diretor da clínica, e pode ter a certeza que se acontecer alguma coisa vou processá-los.” Foi ver o doente, e eu ao lado a acompanhar.
Levantou o lençol e viu que a barriga do doente parecia de um defunto. Septicemia, grave. Pediu os exames que deveriam ter sido feitos, e a enfermeira disse que não havia exames!
“Quero os exames.... (uma porção deles) prontos em meia hora. Chame o anestesista, porque vamos ter que operar já. Depois virou-se para mim e disse: “Eu não toco neste doente sem que o médico dele esteja aqui. Porque se ele morrer durante a operação ele é quem vai assumir a culpa.”
Sai um batalhão de gente à procura desse coimbrão. A sala de operações pronta: cirurgião, anestesista, auxiliares, e nada de começar.
O dr. coimbrão avisado da gravidade do caso em vez de ir ver o doente foi ver o futebol! A Académica jogava nesse dia em Luanda contra um clube de Luanda.
Um colega da Cuca descobriu-o ali, agarrou-o por um braço e levou-o para a clínica. Mal entrou puseram-lhe uma máscara, o cirurgião mandou-o ficar num canto, quieto, dizendo-lhe que se acontecesse alguma coisa ele iria ser responsabilizado.
Demorou uma hora a operação e quem estava lá, como a esposa do Dias, e mais dois colegas da Cuca, num total silêncio. Por fim o médico que o operou sai, chama-me e diz: “Se tivesse sido feito na hora, era uma facadinha e dois pontos. Assim tivemos que cortar um pouco do intestino, limpar tudo, e agora as primeiras 48 horas são fundamentais. Se as vencer pode ser que se recomponha.
Vivemos essas horas num sobressalto. Passadas, o médico volta a dizer que fica mais uma semana na clínica e se tudo correr bem poderá ir para casa!
Santo Deus! Que alívio. O Dias estava fora de perigo. A mulher chorava de comoção e eu consegui seguir para Nova Lisboa.

***
Histórias alegres
2.- O telegrama
Lá por volta do final dos anos 40 ou 50 do finado século XX, foi quando Portugal reparou que tinha territórios excepcionais no ultramar, e começou devagarinho, e a medo, a abrir as portas à “emigração” sobretudo para Angola e Moçambique.
Chamar emigração dentro do mesmo país...
Há absurdos na história que, hoje contados, as pessoas pensam que é mentira, como por exemplo ser necessário para ir para Angola, uma “Carta de chamada”, obrigando-se o “chamador” – empresa – a responsabilizar-se por devolver o cidadão à metrópole em caso de... nem se sabe mais do que!
São histórias que pertencem não ao século findo, mas na verdade aos séculos muito passados!
Vale contar duas historinhas:
- Um jovem português sai do pátrio lar e decide ir para Angola. Os pais, chorosos pedem-lhe insistentemente que assim que lá chegue dê notícias. África ainda era o continente onde cobras e leões se passeavam nas ruas das pequenas cidades, as doenças tropicais grassavam e matavam sem que o doente disso se apercebesse, e o terror ficava na família que, junto à lareira, chorava de saudades à espera de notícias.
O emigrante, a quem chamaremos Nuno (porque precisa de um nome) nunca mais disse nada, e os pais sofriam. A todos os conhecidos e até desconhecidos que iam para aquela terra pediam, pelo amor de Deus e dos anjos, que lhes dessem notícias do filho e, sobretudo, que lhe pedissem para escrever aos pais.
Os portadores dessa incumbência se encontravam ou não o “fugitivo” também pouco ou nada diziam, mas alguns insistiam: “Deixa de ser preguiçoso. Escreve aos teus pais. Estão a ficar velhotes e sofrem muito com a falta de notícias.”
Nuno dizia a tudo que sim, que tinham razão e iria escrever. Mas... nada.  
Um dia, depois de muito instado, Nuno tomou uma atitude heroica, apesar de passados já uns três ou quatro anos depois que chegara a Luanda.
Foi aos correios e mandou um telegrama aos pais:
- CHEGUEI  BEM  STOP  NUNO.
***
3.- O casamento
Outro emigrante, mais ou menos da mesma época. Os pais menos preocupados com o recebimento de notícias, mas com o ambiente que o filho iria encontrar, advertiam:
- Meu filho, quando começares a ver que as mulheres negras afinal não são tão escuras, toma cuidado.
- Meu pai, não precisa se preocupar. Vejo muito bem e jamais irei confundir as cores das peles.
Não passou muito tempo, mas como o Nuno, André, o novo personagem, também não era dado a escritas.
Recebe uma carta do pai que volta a aconselhá-lo que tomasse atenção ao olhar para as mulheres, e... “se vires que estão a ficar mais claras...”
André encheu-se de coragem e respondeu:
“Pai: não precisas ficar preocupado comigo. Sei muito bem distinguir o que me pretendes avisar. Quando aqui cheguei vi milhares de mulheres negras, por todo o lado, o que muito me impressionou. Mas não sei o que passou nesta terra porque desde há algum tempo que não vejo a não ser uma ou outra bem velhinha. De resto, podem não ser louras, mas não encontro mais mulheres negras. Todas têm uma pele linda, clara, muito mais bonita que as trigueiras dessa nossa terra.
E olha pai: já estou casado com uma linda senhora desta terra, tenho um filho, e vivo entusiasmado, para não dizer excitado ao ver todas as outras com quem me cruzo nas ruas, ou encontro nas lojas.”

Era assim.... em Angola.


8 / 09 / 2016

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

 

Impeachment, julgamento, farsa, 

etc.


Há tempo que não faço comentários à política, economia, segurança e outras áreas do Brasil... para que fazer?
O impeachment da madama dona presidenta foi um teatro de comédia. Comédia pobre, mal-educada, grosseira, podre, falsa. Mandaram a dona para casa, mas não lhe caçaram os direitos políticos o que foi uma violação à Constituição. Isso quer dizer que ela pode se candidatar novamente e voltar para onde estava, daqui a pouco mais de um ano. Brilhante, né?
Isto porque a grande maioria dos políticos – deputados, senadores e até juízes – preferem ficar em cima do muro, para o caso da senhora voltar eles continuarem a mamar na teta da res publica.
Entretanto assume o vice – o do “golpe”, que nem foi ele que deslanchou – e é obrigado a chamar para o governo indivíduos com um, dois ou dúzias de processos em tribunal. Porque? Porque precisa do cãogresso e sem o apoio dessa banditagem todos os projetos de acerto do país lhe serão negados e entraremos em super colapso. Em colapso já estamos.
Foi publicado há poucos meses um livro sobre o juiz Sérgio Moro (que muito recomendo, escrito por um professor universitário de direito, Luiz Scarpino) que tem conduzido com muita coragem e isenção o aplaudido processo “Lava Jato”, que já meteu na cadeia um monte de grandões de colarinho branco.
Até Maio ou Junho deste ano, foram expedidas largas centenas de mandados de prisão, preventiva ou temporária, de busca e apreensão e de condução coerciva, a presidentes das maiores empresas do país, e seus diretores, a diretores da Petrobrás, traficantes (doleiros), amigos do lula, lulinha e diliminha, ex ministros e toda uma canalha envolvida em desvios que se calcula atinjam a “montuêra” de largos bilhões de reais, roubados aos cofres públicos.
Infelizmente no Brasil há toda uma gangue – senadores, deputados, ministros e governadores, que usufrue de uma manobra escandalosa chamada de “foro privilegiado”, por eles criada, como é óbvio, que obriga a justiça a só poder processá-los junto ao Supremo Tribunal Federal, hoje entupido de processos, o que protela até, por vezes, à prescrição!
O presidente do Senado tem um monte de processos em juízo – corrupção, abuso de poder, lavagem de dinheiro e outras mil brincadeiras – e continua sendo uma das figuras mais importantes e influentes no quadro político do país, assim como uma imensidão de outros senadores e deputados.
Se hoje fosse possível meter essa turma toda na cadeia, o que significa algo em torno de quatrocentos indivíduos (!!!!!) vários problemas, graves, surgiriam:
- primeiro não há cadeias que cheguem!
- depois, tal como já refere o Dr. Luiz Scarpino no livro citado, e aconteceu na operação “Mane Pulite” na Itália contra a máfia, de repente o Brasil ficaria acéfalo, sem líderes (mesmo que se saiba que os de hoje são “piores que o Deus me livre”) o que permitiria o aparecimento de outra casta de malandros espertos (malandro e esperto é pleonasmo), como aconteceu na Itália com Berlusconi!
Como resultado estes processos contra a corja que se apropriou do país, têm que ir “piano, piano”, apesar de todos esperarmos que não leve tempo demais até que possam os bandidos se livrarem do cutelo da justiça.
Já tem muitos na cadeia, alguns com penas de 10, 15 e mais de 20 anos, e inclusive com multas que vão a vários milhões de cada um. Mas ainda é só o começo.
O que está agora na moda, e essa moda veio também da Itália, são as delações premiadas que, de acordo com a lei, prevê que pode beneficiar o acusado com:
- diminuição da pena de 1/3 a 2/3;
- cumprimento da pena em regime semiaberto;
- extinção da pena;
- perdão judicial;
E o povo fica estarrecido ao saber que um doleiro, implicado pela segunda vez em lavagem de dinheiro, e muitíssissimo dinheiro traficado entre a gangue do governo, depois de, na primeira vez há uns dez anos, ter jurado pela saúde da mamãe e dos filhinhos que ia portar-se direitinho, volta a ser apanhado neste processo “Lava Jato”, é condenado a 124 anos de cadeia, entra com a delação premiada e... passa 3 anos na cadeia (cadeia com quarto privativo, sala de almoço, tv, e o máximo de mordomias possível) e quando sair volta a ser um “grande senhor”, dono de milhões em paraísos fiscais, e, certamente vai continuar com o seu trabalhinho de comprar políticos e mandar dinheiro para fora!
É evidente que todos queremos acreditar na justiça, e que o povo torce por juízes como o Sérgio Moro ou Joaquim Barbosa, os aplaude e até gostaria de vê-los a comandar os destinos do Brasil.
Mas também sabemos que estes processos não só não acabam nunca e que mesmo uma pequena melhoria, leva anos a acontecer.
Se não se educar desde os primeiros momentos da vida de um indivíduo que a ÉTICA e a educação são o alicerce básico para se construir uma nação respeitável, prendem-se agora um monte de facínoras bilionários, mas no vácuo deixado outros tantos aparecerão.
A educação começa em casa e nos primeiros bancos da escola.
Em casa, onde o povo está habituado ao jeitinho, a ver milhões receberem propinas, na Petrobrás, institutos de Seguros de aposentadorias, nos hospitais, no Detran (para obter carta de condução mesmo sem fazer exame), em TODAS as obras públicas, federais, estaduais ou municipais, na polícia que é muitas vezes obrigada (ou voluntária) a negociar com os narcotraficantes, agora na organização das Olimpíadas com obras sobre faturadas e onde até o presidente do CO da Irlanda vendia, aqui no Brasil, ingressos igualmente superfaturados, será em casa que os pais poderão ensinar os filhos a comportarem-se? Será que a maioria sabe o que é ética, ou quer que país deixe de ter o “jeitinho”?
Será que vão aprender nas escolas primárias e infantis onde a grande maioria vive um descalabro impressionante?
Só o tempo dirá.
A argumentação mais gasta é que aqui tudo é reminiscência do tempo colonial, dos portugueses! Ontem comemoraram-se 196 anos do “grito” do D. Pedro, quando o Brasil se livrou de Portugal.
Continua-se a roubar e a culpa é do Cabral!


08/09/2016

quinta-feira, 25 de agosto de 2016




África
Histórias e contos


Angola, como todos os países africanos, usa muito provérbios. Faz parte inseparável da sua cultura, e têm sempre uma profundidade grande. Vamos começar por um, angolano:
Muezu ua muadiakimi, a-u-sung ni ndunge (*)
Barbas de homem idoso, com jeito se puxam
(Com brandura, tudo se consegue)
Antes de continuar com contos tradicionais, duas histórias de portugueses em Angola, muito conhecidas da velha gente daqueles tempos, mas ainda hoje recordá-las é um prazer grande.
Henrique Galvão, que chegou a ser um homem da confiança do Salazar, depois o seu mais terrível adversário, foi preso em Lisboa, evadiu-se da cadeia, fez o primeiro sequestro mundial de um avião, da TAP, obrigando-o a ir para Casablanca, depois repetiu a iniciativa ao sequestrar o navio “Santa Maria” que deu um tremendo brado internacional, mas ninguém lhe pode negar que não tenha sido uma personalidade de valor. Meio louco como o seu compadre Umberto Delgado. Aliás não simpatizavam um com o outro!
Quando Inspetor Superior Ultramarino, numa das suas inspeções a Angola, quis visitar alguns Postos da Administração que jamais tinham sido inspecionados por alguém.
Chega um dia a um desses postos, lá bem “perdido” no interior da savana africana; o Chefe do Posto, espantado, vê ao longe a poeira levantada por um carro, caso inédito, imaginando que seriam caçadores perdidos, espera que os viajantes desembarquem. Sai um deles que se lhe dirige e se apresenta:
- Henrique Galvão, Inspetor Superior Ultramarino.
O Chefe de Posto sabia que nunca ali tinha ido qualquer superior a ele, desconfiado, pensa que é piada e responde:
- Não precisa vir com essa conversa de inspetor, que aqui jamais veio gente dessa. Mas nem por isso deixarei de o receber o melhor que posso, neste fim do mundo onde tudo falta. Mas “papo” de inspetor é que não tem graça!
Henrique Galvão gostou da atitude do jovem chefe de posto, que acabou por saber que era mesmo o “chefe máximo” da Administração Ultramarina, elogiou-o e parece que depois o promoveu!
Lá no canto sudeste de Angola havia um outro Posto, junto à fronteira com o Sudoeste Africano, hoje Namíbia, igualmente isolado do mundo dos brancos, e cuja função, além da política de ocupação, era mandar relatórios mensais sobre as atividades da sua área: chuvas ou secas, quantos nascimentos, quantas mortes, do povo e do gado, eventuais doenças que não havia nem brigas entre etnias, enfim um sossêgo, para que se fosse tendo noção do que ali se passava e, talvez, talvez, se fizesse no fim uma estatística geral de Angola!  De mentirinha.
Como é de calcular esses relatórios não tinham qualquer valor porque os nativos não iam ao Posto declarar nascimentos e mortes, nem informavam quantas vacas ou cabras tinham nascido. Era tudo “conversa fiada”, mas o Chefe do Posto tinha que enviar, mensalmente, um relatório com esses dados, para o Administrador da Circunscrição, que ficava, talvez a uns 200 ou 300 quilômetros de distância. Essa entrega era confiada a um cipaio, uma espécie de polícia rural, a maioria analfabeta. Chamava- a esse relatório, uma carta, mukanda!
Todos os meses o cipaio tinha que percorrer centenas de quilômetros e levar as mikanda, que, possivelmente o Administrador nem lia.
O Chefe do Posto de tantas mandar acabou por considerar aquilo um trabalho idiota e talvez inútil e decidiu agir de outra “melhor” forma: escreveu meia dúzia de pré monitorados relatórios, envelopou-os todos, com as datas exteriores programadas e bem destacadas, entregou-os ao cipaio e disse-lhe:
- Como você sempre fez, continuará a ir todo o mês levar uma mukanda à Administração. Eu vou deixar todas as mikanda aqui, e você, uma vez por mês tira a de cima e leva.
- Tá bem, patrão.
O Chefe deixou o Posto onde nada havia para fazer, passou a fronteira e foi passar uns meses de férias em Portugal, certo de que ninguém daria por isso.
Mas o cipaio no começo do terceiro mês olhou para as mikanda, ainda havia três para entregar, e pensou:
- Para que ir lá todo o mês. Vou só mais uma e levou logo tudo.
Se bem pensou assim o fez e a manobra foi descoberta! O Chefe já não retornou ao Posto!

Os contos tradicionais africanos, quer sejam de Angola ou de outro país são quase sempre de animais, por onde se tiram lições para os humanos e revelam um profundo conhecimento da vida animal, e as transpõem, com humor, para a dos homens.
Um tigre voltava para casa depois de um dia a caçar, quando de repente se encontra num curral de carneiros. O tigre que nunca havia visto um carneiro, aproximou-se com ar humilde e perguntou: “Como te chamas, amigo?”
O carneiro, com a sua voz rouca e colocando uma pata no peito do tigre respondeu: “Sou um carneiro. E tu quem és?” “Um tigre”, respondeu cheio de medo. Mais morto do que vivo, despediu-se do carneiro e correu para casa.
Um chacal vivia perto da casa do tigre e este disse-lhe: “Amigo chacal, estou sem alento e meio morto do susto, pois acabo de me encontrar com um animal de aspecto horrível, com uma grande cabeça, que me disse com uma voz rouca: “Sou um carneiro.”
“Mas tigre que tonto és!” gritou, rindo o chacal. “Deixar escapar um pedaço de carne tão tenra e assustar-se por um carneiro! Porque? Amanhã de manhã iremos lá os dois e o comeremos juntos.”
No dia seguinte caminharam os dois para o curral do carneiro, e quando este, que havia saído para ver onde encontrava comida fresca, viu que no alto do morro apareciam o tigre e o chacal, temeu que aquilo acabasse mal, correu para avisar a sua esposa, e disse-lhe: “Temo que hoje seja o nosso último dia porque o tigre e o chacal vêm contra nós. O que vamos fazer?” – Não te assustes – disse a esposa – toma um dos filhos nos teus braços, sai com ele e belisca-o para que chore como se tivesse fome.” Assim fez o carneiro, enquanto os dois companheiros se acercavam. Quando o tigre voltou a ver o carneiro encheu-se de medo outra vez, queria voltar-se e ir embora, mas o chacal, prevendo isso, amarrou-se ao tigre com uma tira de couro, e dizia-lhe - “Anda. Segue-me ” - quando o carneiro gritou alto e forte enquanto beliscava o filho:
- “Fizeste bem, amigo chacal, de trazer-me este tigre para comer, pois ouves como chora o meu filho pela fome que tem.”
Ao ouvir estas terríveis palavras o tigre, apesar dos rogos do chacal, arrancou a correr cheio de pânico, o mais rápido que podia e arrastou o chacal por montes e vales, através de arbustos espinhosos e rochas chegando a casa com o chacal quase morto.
E assim se escapou o carneiro!

Ikumbakumba yoñhosi ihai imbi engolo okunwa (**)
Os urros do leão não impedem a zebra de beber água.

* Provérbio quimbundo – Missosso – Vol 1 – Óscar Ribas
** Provérbio cuanhama – A sabedoria do povo Cuanhama – Padre Charles Mittelberger


06/06/2016